Versos Portuguese Machado de Assis Iv

Portuguese poem

Iv

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Um dia, junto á foz de brando e amigo Rio de extranhas gentes habitado, Pelos mares asperrimos levado, Salvaste o livro que viveu comtigo.

E esse que foi ás ondas arrancado, Já livre agora do mortal perigo, Serve de arca immortal, de eterno abrigo, Não só a ti, mas ao teu berço amado.

Assim, um homem só, naquelle dia, Naquelle escasso ponto do universo, Lingua, historia, nação, armas, poesia,

Salva das frias mãos do tempo adverso. E tudo aquillo agora o desafia. E tão sublime preço cabe em verso.

1802-1885

Um dia, celebrando o genio e a eterna vida, Victor Hugo escreveu numa pagina forte Estes nomes que vão galgando a eterna morte, Isaias, a voz de bronze, alma sahida Da coxa de David; Eschylo que a Orestes E a Prometheu, que sofre as vinganças celestes Deu a nota immortal que abala e persuade, E transmitte o terror, como excita a piedade; Homero, que cantou a colera potente De Aquilles, e colheu as lagrimas troyanas Para gloria maior da sua amada gente, E com elle Virgilio e as graças virgilianas; Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombro Dos tyrannos, e o velho e grave florentino, Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro, Baixa humano ao inferno e regressa divino; Logo após Calderon, e logo após Cervantes; Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria; E, para coroar esses nomes vibrantes, Shakespeare, que resume a universal poesia.

E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte, Pega a Historia da penna e na pagina forte, Para continuar a serie interrompida, Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.