Portuguese poem
Iv
Leva o Paraguay as aguas, Leva-as no mesmo correr, E as aves descem ao campo Como usavam de descer.
Tenras flôres, que outro tempo Costumavam de nascer, Nascem; vivem de egual vida; Morrem do mesmo morrer.
Niani, pobre viuva, Viuva sem bem o ser, Tanta lagrima chorada Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiára De um desmaiar que é viver, O choro empana-os agora, Como que vão fenecer.
Corpo que fôra robusto No seu cavallo a correr, De continua dor quebrado Mal se póde já suster.
Collar de prata não usa, Como usava de trazer; Pulseiras de finas contas Todas as veiu a romper.
Que ella, se nada ha mudado Daquelle eterno viver, Com que a natureza sabe Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre, Mas de um continuo morrer, E não ha magua mais triste De quantas podem doer.
Os que out'rora a desejavam, Antes della mal haver, Vendo que chora e padece, Rindo se põem a dizer:
«--Remador vai na canoa, Canoa vae a descer... Piranha espiou do fundo Piranha, que o vae comer.
Ninguem se fie da braza Que os olhos veem arder, Sereno que cae de noite Ha de fazel-a morrer.
Panenioxe, Panenioxe, Não lhe sabias querer. Quem te pagára esse golpe Que lhe vieste fazer!»