Versos Portuguese Machado de Assis (La Fontaine)

Portuguese poem

(La Fontaine)

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Mal que espalha o terror e que a ira celeste Inventou para castigar Os peccados do mundo, a peste, em summa, a peste, Capaz de abastecer o Aqueronte n'um dia, Veio entre os animaes lavrar; E, se nem tudo succumbia, Certo é que tudo adoecia. Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento, Catava mais nenhum sustento. Não havia manjar que o appetite abrisse, Raposa ou lobo que saisse Contra a presa innocente e mansa, Rola que á rola não fugisse, E onde amor falta, adeus, folgança! O leão convocou uma assembléa e disse: «Sócios meus, certamente este infortunio veio A castigar-nos de peccados. Que o mais culpado entre os culpados Morra por applacar a colera divina. Para a commum saúde esse é, talvez, o meio. Em casos taes é de uso haver sacrificados; Assim a historia nol-o ensina. Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia, Pesquizemos a consciencia. Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão, Devorei muita carneirada. Em que é que me offendera? em nada. E tive mesmo occasião De comer egualmente o guarda da manada. Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto. Mas, assim como me accusei, Bom é que cada um se accuse, de tal sorte Que (devemos querel-o, e é de todo ponto Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.» «--Meu senhor, accudiu a raposa, é ser rei Bom demais; é provar melindre exagerado. Pois então devorar carneiros, Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado? Não. Vós fizestes-lhes, senhor, Em os comer, muito favor. E no que toca aos pegureiros, Toda a calamidade era bem merecida, Pois são daquellas gentes taes Que imaginaram ter posição mais subida Que a de nós outros animaes.» Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso. Ninguem do tigre nem do urso, Ninguem de outras iguaes senhorias do matto, Inda entre os actos mais damninhos, Ousava esmerilhar um acto; E até os ultimos rafeiros, Todos os bichos resingueiros, Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos. Eis chega o burro:«--Tenho ideia que no prado De um convento, indo eu a passar, e picado Da occasião, da fome e do capim viçoso, E póde ser que do tinhoso, Um bocadinho lambisquei Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.» Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d'el-rei!» Um lobo, algo lettrado, arenga e persuade Que era força immolar esse bicho nefando, Empesteado autor de tal calamidade; E o pecadilho foi julgado Um attentado. Pois comer erva alheia! ó crime abominando! Era visto que só a morte Poderia purgar um peccado tão duro. E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miseravel ou forte Aulicos te farão detestavel ou puro.