Portuguese poem
(Lamartine)
Quando, comtigo a sós, as mãos unidas, Tu, pensativa e muda; e eu, namorado, Ás volupias do amor a alma entregando, Deixo correr as horas fugidias; Ou quando ás solidões de umbrosa selva Comigo te arrebato; ou quando escuto --Tão só eu,--teus ternissimos suspiros; E de meus labios solto Eternas juras de constancia eterna; Ou quando, emfim, tua adorada fronte Nos meus joelhos tremulos descansa, E eu suspendo meus olhos em teus olhos, Como ás folhas da rosa avida abelha; Ai, quanta vez então dentro em meu peito Vago terror penetra, como um raio! Empallideço, tremo; E no seio da gloria em que me exalto, Lagrimas verto que a minha alma assombram! Tu, carinhosa e tremula, Nos teus braços me cinges,--e assustada, Interrogando em vão, comigo choras! «Que dôr secreta o coração te opprime?» Dizes tu, «Vem, confia os teus pesares.... «Falla! eu abrandarei as penas tuas! «Falla! eu consolarei tua alma afflicta!»
Vida do meu viver, não me interrogues! Quando enlaçado em teus niveos braços A confissão de amor te ouço, e levanto Languidos olhos para ver teu rosto, Mais ditoso mortal o céu não cobre! Se eu tremo, é porque n'essas esquecidas Afortunadas horas, Não sei que voz do enleio me desperta, E me persegue e lembra Que a ventura co' o tempo se esvaece, E o nosso amor é facho que se extingue! De um lance, espavorida, Minha alma vôa ás sombras do futuro, E eu penso então: «Ventura que se acaba Um sonho vale apenas.»