Versos Portuguese Machado de Assis Passaros

Portuguese poem

Passaros

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Olha como, cortando os leves ares, Passam do valle ao monte as andorinhas; Vão pousar na verdura dos palmares, Que, á tarde, cobre transparente véu; Voam tambem como essas avezinhas Meus sombrios, meus tristes pensamentos; Zombam da furia dos contrarios ventos, Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é tambem aquella estancia Onde respira a doce creatura, Filha de nosso amor, sonho da infancia, Pensamento dos dias juvenis. Lá, como esquiva flôr, formosa e pura, Vives tu escondida entre a folhagem, Ó rainha do ermo, ó fresca imagem Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquella estancia, enamorados, Os pensamentos de minh'alma anciosa; Vão contar-lhe os meus dias mal gozados E estas noites de lagrimas e dôr; Na tua fronte pousarão, mimosa, Como as aves no cimo da palmeira; Dizendo aos écos a canção primeira De um livro escripto pela mão do amor.

Dirão tambem como conservo ainda No fundo de minh'alma essa lembrança Da tua imagen vaporosa e linda, Unico alento que me prende aqui. E dirão mais que estrellas de esperança Enchem a escuridão das noites minhas. Como sobem ao monte as andorinhas, Meus pensamentos voam para ti.