Versos Portuguese Machado de Assis Os arlequins

Portuguese poem

Os arlequins

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Musa, depõe a lyra! Cantos de amor, cantos de gloria esquece! Novo assumpto apparece Que o genio move e a indignação inspira. Esta esphera é mais vasta,

E vence a letra nova a letra antiga! Musa, toma a vergasta, E os arlequins fustiga!

Como aos olhos de Roma, — Cadaver do que foi, pavido imperio De Caio e de Tiberio,- O filho de Agripina ousado assoma; E a lyra sobraçando, Ante o povo idiota e amedrontado, Pedia, ameaçando, O applauso acostumado;

E o povo que beijava Outr'ora ao deus Calligula o vestido, De novo submettido Ao régio saltimbanco o applauso dava. E tu, tu não te abrias, Ó céu de Roma, á scena degradante! E tu, tu não cahias, Ó raio chammejante!

Tal na historia que passa Neste de luzes seculo famoso, O engenho portentoso

Sabe illudir a nescia populaça; Não busca o mal tecido Canto de outr'ora; a moderna insolencia Não encanta o ouvido, Fascina a consciencia!

Véde; o aspecto vistoso, O olhar seguro, altivo e penetrante, E certo ar arrogante Que impõe com apparencias de assombroso; Não vacilla, não tomba, Caminha sobre a corda firme e alerta: Tem comsigo a maromba E a ovação é certa.

Tamanha gentileza, Tal segurança, ostentação tão grande, A multidão expande Com ares de legitima grandeza. O gosto pervertido Acha o sublime neste abatimento, E dá-lhe agradecido O louro e o monumento.

Do saber, da virtude, Logra fazer, em premio dos trabalhos, Um manto de retalhos Que a consciencia universal illude. Não córa, não se peja Do papel, nem da mascara indecente, E ainda inspira inveja Esta gloria insolente!

Não são contrastes novos; Já vem de longe; e de remotos dias Tornam em cinzas frias O amor da patria e as illusões dos povos. Torpe ambição sem pêas De mocidade em mocidade corre, E o culto das idéas Treme, convulsa e morre.

Que sonho apetecido Leva o animo vil a taes emprezas? O sonho das baixezas: Um fumo que se esvae e um vão ruido; Uma sombra illusoria

Que a turba adora ignorante c rude; E a esta infausta gloria Immola-se a virtude.

A tão extranha liça Chega a hora por fim do encerramento, E lá sôa o momento Em que reluz a espada da justiça. Então, musa da historia, Abres o grande livro, e sem detença Á invilecida gloria Fulminas a sentença.