Portuguese poem
Ruinas
Cobrem plantas sem flôr crestados muros; Range a porta ancian; o chão de pedra Gemer parece aos pés do inquieto vate. Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto, Sitios caros da infancia. Austera moça Junto ao velho portão o vate aguarda; Pendem-lhe as tranças soltas Por sobre as rôxas vestes. Risos não tem, e em seu magoado gesto Transluz não sei que dôr occulta aos olhos; --Dôr que á face não vem,--medrosa e casta, Intima e funda;--e dos cerrados cilios Se uma discreta e muda Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto; Melancolia tacita e serena, Que os écos não acorda em seus queixumes, Respira aquelle rosto. A mão lhe estende O abatido poeta. Eil-os percorrem Com tardo passo os relembrados sitios, Ermos depois que a mão da fria morte Tantas almas colhera. Desmaiavam, Nos serros do poente, As rosas do crepusculo. «Quem és? pergunta o vate; o sol que foge «No teu languido olhar um raio deixa; «--Raio quebrado e frio;--o vento agita «Timido e frouxo as tuas longas tranças. «Conhecem-te estas pedras; das ruinas «Alma errante pareces condemnada «A contemplar teus insepultos ossos. «Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo «Sinto não sei que vaga e amortecida «Lembrança de teu rosto.»
Desceu de todo a noite, Pelo espaço arrastando o manto escuro Que a loura Vesper nos seus hombros castos, Como um diamante, prende. Longas horas Silenciosas corrêram. No outro dia, Quando as vermelhas rosas do oriente Ao já proximo sol a estrada ornavam, Das ruinas sahião lentamente Duas pallidas sombras...