Portuguese poem
Scena I
LYSIAS, CLEON, MYRTO.
(Estão no fim de um banquete, os dous homens deitados á maneira antiga, Myrto sentada entre os dous leitos. Tres escravos.)
LYSIAS.
Melancolica estás, bella Myrto. Bebamos! Aos prazeres!
CLEON.
Eu bebo á memoria de Samos. Samos vai terminar os seus dourados dias; Adeus, terra em que achei consolo ás agonais Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!
MYRTO.
Querem-lhe os deuses mal?
CLEON.
Não; dous olhos, os teus.
LYSIAS.
Bravo, Cleon!
MYRTO.
Poeta! os meus olhos?
CLEON.
São lumes Capazes de abrasar até os proprios numes. Samos é nova Troya, e tu és outra Helena, Quando Lesbos, a mão do Sappho, a ilha amena, Não vir a bella Myrto, a alegre cortezã, Armar-se-ha contra nós.
LYSIAS.
Lesbos é boa irmã.
MYRTO.
Outras bellezas tem, dignas da loura Venus.
CLEON.
Menos digna de tu.
MYRTO.
Mais do que eu.
LYSIAS.
Muito menos.
CLEON.
Tens vergonha de ser formosa e festejada, Myrto? Venus não que beleza envergonhada. Pois que dos immortaes houveste esse condão De inspirar quantos vês, inspira-os, Myrto.
MYRTO.
Não; São teus olhos, poeta; eu não tenho a belleza Que arrasta corações.
CLEON.
Divina singeleza!
LYSIAS (á parte).
Vejo através do manto as galas da vaidade.
(Alto.)
Vinho, escravo!
(O escravo deita vinho na taça de Lysias.)
Poeta, um brinde á mocidade. Trava de lyra e invoca o deus inspirador.
CLEON.
«Feliz em junto de ti, ouve a tua falla, amor!»
MYRTO.
Versos de Sapho!
CLEON.
Sim.
LYSIAS.
Vês? ó modestia pura. Elle é na poesia o que és na formosura. Faz versos de primor e esconde-os ao profano: Tem vergonha. Eu não sei se o vicio é lesbiano...
MYRTO.
Ah! tu és...
CLEON.
Lesbos foi minha patria tambem, Lesbos, a flôr do Egeo.
MYRTO.
Já não é?
CLEON.
Lesbos tem Tudo o que me fascina e tudo o que me mata: As festas do prazer e os olhos de uma ingrata. Fugi da patria e achei, já curado e tranquillo, Em Lysias um irmão, em Samos um asylo. Bem hajas tu que vens encher-me o coração!
LYSIAS.
Insaciavel! Não tens em Lysias um irmão?
MYRTRO.
Volto á patria.
CLEON.
Pois que! tu vais?
MYRTO.
Em poucos dias...
LYSIAS.
Fazes mal; tens aqui os moços e as folias, O gozo, a adoração; que te falta?
MYRTO.
Os meus ares.
CLEON.
A que vieste então?
MYRTO.
Successos singulares. Vim por acompanhar Lysicles, mercador De Naxos; tanto póde a constancia no amor! Corrêmos todo o Egeo e a costa ionia; fomos Comprar o vinho a Creta e a Tenodos os pomos. Ah! como é doce o amor na solidão das aguas! Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as mágoas. Zephyro ouviu por certo os osculos febris, Os jubilos do affecto, as fallas juvenis; Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa A indiscreta ventura, a effusão doce e terna. Para a furia acalmar da sombria deidade, Nave e bens varreu tudo a horrivel tempestade. Foi assim que eu perdi a Lysicles, assim Que eu semi-morta e fria á tua plaga vim.
CLEON.
Ó coitada!
LYSIAS.
O infortunio os animos apura; As feridas que faz o mesmo Amor as cura; Brandem armas iguaes Achilles e Cupido. Queres ver n'outro amor o teu amor perdido? Samos o tem de sobra.
CLEON.
Eu, Myrto, eu sei amar; Não fio o coração da inconstancia do mar. Não tenho galeões rompendo o seio a Thetys, Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Lethes. Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte; Pódes doar-me a vida ou decretar-me a morte.
MYRTO.
Mas, se eu volto...
CLEON.
Pois bem! aonde quer que te vás Irei comtigo; a deusa indomita e fallaz Ser-me-ha hospede amiga; ao pé de ti a escura Noite parece aurora, e é berço a sepultura.
MYRTO.
Quando falla o dever, a vontade obedece; Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece.
LYSIAS.
Tens razão, bella Myrto; escuta o teu dever.
CLEON.
Ai! é facil amar, difficil esquecer.
LYSIAS (a Myrto).
Queres pôr termo á festa? Um brinde a Venus, filha Da mar azul, belleza, encanto, maravilha; Nascida para ser perpetuamente amada. A Venus!
(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com agua perfumada em que os convivas lavaram as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)
Queres tu, mimosa naufragada, Ouvir de hermonia serva, em lyra de marfim, Uma alegre canção? Preferes o jardim? O portico talvez?
MYRTO.
Lysias, sou indiscreta; Quizera antes ouvir a voz do teu poeta.
LYSIAS.
Nume não pede, impõe.
CLEON.
O mando é lisongeiro.
LYSIAS.
Pois começa.