Versos Portuguese Machado de Assis Scena Vii

Portuguese poem

Scena Vii

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MYRTO, LISIAS.

MYRTO.

Sou curiosa. Quem é Clinias, ex-mercador? Amigo d'elle?

LYSIAS.

Mais do que isso; é um credor.

MYRTO.

Ah!

LYSIAS.

Que bello rapaz! que alma fogosa e pura, Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura! Queira o céu pôr-lhe termo á profunda agonia, Surja emfim para elle o sol de um novo dia. Merece-o. Mas vê lá se ha destino peior: Quer o alado Mercurio obstar o alado Amor. Com beijos não se paga a pompa do vestido, O expetaculo e a mesa; e se o gentil Cupido Gosta de ouvir canções, o outro não vai com ellas; Vale uma drachma só vinte odezinhas bellas. Um poema não compra um simples borzeguim. Versos! são bons de ler, mais nada; eu penso assim.

MYRTO.

Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste; Quando o genio o possue quem ha que o não requeste? Hermes, com ser o deus dos graves mercadores, Tocou lyra tambem.

LYSIAS.

Já sei que estás de amores.

MYRTO.

Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.

LYSIAS.

Perdeste o coração?

MYRTO.

Sim; perdi-o no mar.

LYSIAS.

Pesquemol-o; talvez essa perola fina Venha ornar-me a existencia agourada e mofina.

MYRTO.

Mofina?

LYSIAS.

Pois então? Enfarão-me estas bellas Da terra samiana; assaz vivi por elas. Outras desejo amar, filhas do azul Egeo. Varia de feições o Amor, como Protheo.

MYRTO.

Seu carater melhor foi sempre o ser constante.

LYSIAS.

Serei menos fiel, não sou menos amante. Cada belleza em si toda a paixão resume. Pouco me importa a flôr; importa-me o perfume.

MYRTO.

Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flôr; Nem fere o objecto amado a mão que implora o amor.

LYSIAS.

Offendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.

MYRTO.

Já esqueci; passou.

LYSIAS.

Quem falla como pensa Arrisca-se a perder ou por sobra ou por mingoa. Eu confesso o meu mal; não sei tentear a lingua. Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens A graça das feições, o summo bem dos bens; Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe Como um philtro de amor que, sem sentir, se bebe, De teus olhos destilla a eterna juventude; De teus olhos que um deus, por lhes dar mais virtude, Fez azues como o céu, profundos como o mar. Quem taes dotes reune, ó Myrto, deve amar.

MYRTO.

Fallas como um poeta, e zombas da poesia!

LYSIAS.

Eu, poeta? jámais.

MYRTO.

A tua fantasia Respirou certamente o ar do monte Hymmeto. Tem a expressão tão doce!

LYSIAS.

É a expressão do affecto. Sou em cousas de Apollo um simples amador. A minha grande musa é Venus, mãe do amor. No mais não apprendi (os fados meus adversos Vedárão-m'o!) a cantar bons e sentidos versos. Cleon, esse é que sabe accender tantas almas, Conquistar de um só lance os corações e as palmas.

MYRTO.

Conquistar, oh! que não!

LYSIAS.

Mas agradar?

MYRTO.

Talvez.

LYSIAS.

Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez Fal-o-ei jamais? Contudo, inda tental-o quero; Se não me inspira a musa, alma filha de Homero, Inspira-me o desejo, a musa que delira, E o seu canto concerta aos sons da eterna lyra.

MYRTO.

Tambem desejas ser alguma coisa?

LYSIAS.

Não; Eu caso o meu amor ás regras da razão. Cleon quizera ser o espelho em que teu rosto Sorri; eu, bela Myrto, eu tenho melhor gosto. Ser espelho! ser banho! e tunica! tolice! Esteril ambição! loucura! criancice! Por Venus! sei melhor o que a mim me convem. Homem sisudo e grave outros desejos tem. Fiz, a este respeito, aprofundado estudo; Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo. Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino, A tunica melhor de pano tarentino, Vasos de oleo, um colar de perolas,--enfim Quanto enfeita uma dama aceital-o-has de mim. Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa; Para os dedos o annel de pedra preciosa; A tua fronte pede aureo, rico anadema; Têl-o-has, divina Myrto. É este o meu poema.

MYRTO.

É lindo!

LYSIAS.

Queres tu, outras estrophes mais? Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada Lais. Casa, rico jardim, servas de toda a parte; E estatuas e paineis, e quantas obras d'arte Podem servir de ornato ao templo da belleza, Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza Tu ha de faltar, mimosa, e só quero um penhor. Quero... quero-te a ti.

MYRTO.

Pois que! já quer a flôr, Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o perfume?

LYSIAS.

Esqueceste o perdão?

MYRTO.

Ficou-me este azedume.

LYSIAS.

Venus póde apagal-o.

MYRTO.

Eu sei, creio e não creio.

LYSIAS.

Hesitar é ceder: agrada-me o receio. Em assumpto de amor, vontade que fluctua Está prestes a entregar-se. Entregas-te?

MYRTO.

Sou tua!