Versos Portuguese Machado de Assis Sombras

Portuguese poem

Sombras

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Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas, E cerras descuidada as palpebras divinas, E deixas no regaço as tuas mãos cair, E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir, Acaso uma lembrança, um éco do passado, Em teu seio revive? Ó tumulo fechado Da ventura que foi, do tempo que fugiu, Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu? Com que flôr, com que espinho, a importuna memoria Do teu passado escreve a mysteriosa historia? Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus? Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus? É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio? Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirio Apenas alumia a nave e o grande altar E deixa todo o resto em treva,--e o nosso olhar Cuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas, As sombras immortaes das creaturas mortas, Palpita o coração de assombro e de terror; O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor, Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama; O animo esclarece aquella eterna chamma; Ajoelha-se contricto, e murmura-se então A palavra de Deus, a divina oração.

Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo; Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo; Corre sobre o passado impenetravel véu; Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.