Versos Portuguese Machado de Assis Scena Iii

Portuguese poem

Scena Iii

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LYSIAS, CLEON.

CLEON.

(Olhando para o lugar por onde Myrto saiu.)

Oh! deuses! que mulher!

LYSIAS.

Ah! que perola rara!

CLEON.

Onde a encontraste?

LYSIAS.

Achei-a Com Parthenis que dava uma esplendida ceia; Parthenis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da moda, Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda; E, para não perder o grupo adorador, Fez do templo deserto uma escola de amor. Foi ella quem achou a naufraga perdida, Exposta ao vento e ao mar, quasi a expirar-lhe a vida. A belleza pagava o emprego de uma esmola; Dentro em pouco era Myrto a flôr de toda a escola.

CLEON.

Lembrou-te convidal-a então para um festim?

LYSIAS.

Foi um pouco por ella e um pouco mais por mim.

CLEON.

Tambem amas?

LYSIAS.

Eu? não. Quis ter á minha mesa Venus e o louro Apollo, a poesia e a belleza.

CLEON.

Oh! a belleza, sim! Viste já tanta graça, Tão celestes feições?

LYSIAS.

Cuidado! Aquella caça Zomba dos tiros vãos de ingenuo caçador!

CLEON.

Incredulo!

LYSIAS.

Eu sou mestre em materia de amor. Se tu, attento e calmo, a narração lhe ouvisses Conhecêras melhor o engenho d'esta Ulysses. Aquelle ardente amor a Lysicles, aquelle Fundo e intenso pesar que á sua patria a impelle, Armas são com que a astuta os animos seduz.

CLEON.

Oh! não creio.

LYSIAS.

Porque?

CLEON.

Não vês como lhe luz Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?

LYSIAS.

Sim, tem muita expressão... para illudir meninos.

CLEON.

Pois tu não crês?

LYSIAS.

Em que? No naufragio? De certo. Em Lysicles? Talvez. No amor? é mais incerto. Na intenção de voltar a Lesbos? isso não! Sabes o que ela quer? Prender um coração.

CLEON.

Impossivel!

LYSIAS.

Poeta! estás na alegre idade Em que a sciencia da vida é a credulidade. Vês tudo azul e em flôr; eu já me não illudo. Pois amar cortezãs! isso demanda estudo, Não vai assim, que as tais abelhitas do amor Correm de bolsa em bolsa e não de flôr em flôr.

CLEON.

Mas não as amas tu?

LYSIAS.

De certo... á minha moda; Meu grande coração co'os vicios se acommoda; Sacrificios de amor não sonha nem procura; Não lhes pede illusões, pede-lhes só ternura. Não me empenho em achar alma ungida no céu: Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu. Não peço amor ao vinho; irei pedil-o ás damas? D'ellas e d'elle exijo apenas estas chammas Que ardem sem consumir, na pyra dos desejos. Assim é que eu estimo as amphoras e os beijos. Lá protestos de amor, eternos e leaes, Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortaes Somos todos assim.

CLEON.

Ai, os mortaes! dize antes Os philosophos máos, ridiculos pedantes, Os que não sabem crer, os fartos já de amores, Esses, sim. Os mortaes!

LYSIAS.

Refreia os teus furores, Poeta; eu não quizera amargurar-te, e enfim Não podia suppôr que a amasse tanto assim. Caspité! Vais depressa!

CLEON.

Ai, Lysias, é verdade, Amo-a como não amo a vida e a mocidade; De que modo nasceu esta affeição que encerra Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra Por que é mais bella ao sol e ás auras matinaes? Amores estes são terriveis e fataes.

LYSIAS.

Vês com olhos do céu cousas que são do mundo; Acreditas achar esse affecto profundo, N'estas filhas do mal! Se a todo o transe queres Obter a casta flôr dos celicos prazeres, Deixa a alegre Corintho e todo o luxo seu; Outro porto acharás: procura o gyneceo. Escolhe aquelle amor doce, innocente e puro, Que inda não tem passado e vive no futuro. Para mim, já t'o disse, o caso é differente; Não me importa um nem outro; eu vivo no presente.

CLEON.

Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal: Viver, sem illusões, no bem como no mal; Não conhecer o amor que morde, que se nutre Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre; Não beber gotta a gotta este brando veneno Que requeima e destróe; não ver em mar sereno Subitamente erguer-se a voz dos aquilões. Afortunado és tu.

LYSIAS.

Lei de compensações! Sou philosopho mau, ridiculo pedante, Mas inveja-me a sorte; oh! logica de amante.

CLEON.

É a do coração.

LYSIAS.

Terrível mestre!

CLEON.

Ensina Dos seres immortaes a transfusão divina!

LYSIAS.

A lição é profunda e escapa ao meu saber; Outra escola professo, a escola do prazer!

CLEON.

Tu não tens coração.

LYSIAS.

Tenho, mas não me illudo. É Circe que perdeu o encanto e a juventude.

CLEON.

Velho Satyro!

LYSIAS.

Justo: um semi-deus sylvestre. N'estas cousas do amor nunca tive outro mestre. Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir. Tres artigos da lei: gozar, beber, dormir.

CLEON.

Compras com isso a paz; a mim coube-me o tedio, A solidão e a dôr.

LYSIAS.

Queres um bom remedio, Um filtro da Thessalia, um balsamo infallivel? Esquece emprezas vãs, não tentes o impossivel Prende o teu coração nos laços de Hymenêo; Casa-te; encontrarás o amor no gynecêo. Mas cortezãs! jámais! São Gorgones! Medusas!

CLEON.

Essas que conheceste e tão severo accusas --Pobres moças!--não são o universal modelo: De outras sei a quem coube um coração singelo, Que preferem a tudo a gloria singular De conhecer somente a sciencia de amar; Capazes de sentir o ardor da intensa chamma Que eleva, que resgata a vida que as infama.

LYSIAS.

Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-t'o.

CLEON.

Basta um passo, achal-o-hei.

LYSIAS.

Bravo! chama-se?

CLEON.

Myrto, Que póde conquistar até o amor de um deus!

LYSIAS.

Crês n'isso?

CLEON.

Porque não?

LYSIAS.

Tu és um nescio; adeus!