Versos Portuguese Manuel de Oliveira Paiva Sepultação

Portuguese poem

Sepultação

by (1861–1892)

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Senti um pontapé desmesurado, elétrico. Uma luz cor de enxofre e uma fumaça azul Circundavam no espaço um personagem tétrico, De cabelos de urtiga e cútis de paul; Olhos como do cal das brancas sepulturas E beiços cor de sangue. Duas dentaduras Negras, pontudas, moles. Faces bem redondas Tendo o mexer metódico do pêndulo e das ondas.

"Vamos fazer viagem. Mas só leves alma. Pendura o corpo aí no torno do cabide. Não receies o tempo, o inferno tudo acalma. Eu te meto no bolso. Eia! A hora progride! Deixa que tombe a chuva e que campeie o frio: Nós somos invisíveis. Vamos pelo fio."

E entramos a girar num turbilhão medonho, Ele o Judas tratante, eu o poeta bisonho. Não sei por onde andei, mas em voltando aqui Soube que fui parar no Itacolomi. E era mesmo um monte, alto e muito alto. Sobre um chão pedregoso calçado de alfato A mesa se assentou. Dos antros da floresta Saíram aos milhões os pares para a festa. Eu vi que todos eles eram almas que Como eu tinham deixado o corpo suspendido. A muitos conheci, mas me ocultei (não vê!).

Andavam como a lesma. E todos como Judas Tinham olhos de cal e unhas pontiagudas. Se esparracharam logo em roda à mesa infinda. Serviu-se fel de boi, graxa do Rio-Grande, Doce de escarradeira e mel de sopa finda, E tanta cousa mais... Depois o chefe expande O peito chocalhento e fala aos conjurados: "Quer sejais fazendeiros, condes, deputados, Ou doutor, ou ladrão, ou monge, ou senador, Ou bravo militar, ou mesmo imperador, Todos sabeis bastante o motivo justíssimo Que nos reúne aqui neste bosque escuríssimo. Igual a nossa causa, incisiva, leônica, Minha linguagem é, espartana, lacônica. Eu digo pois devemos já e já e já Como as secas torrar o povo do Ceará."

Foi um bater de mão, foi um bater de pé E tantos juramentos sagrados, de fé, Que a montanha oscilou, a Serra do Espinhaço, Como quem leva um murro em cima do cachaço. Mas pediu a palavra um tal republicano Exigiu retirar-se o nome de um cigano De uma conspiração tão digna de louvor. E declarou que o nome era o de imperador. Judas, porém, loquaz e bem experimentado, Pula em cima da mesa, o punho arregaçado: "Patife, sem-vergonha, vil especulador Que depois de adular ao teu imperador Vais reforçar o infame republicanismo, Sabe que sem o rei não há escravagismo!!" Então o presidente de toda a assembléia Quer acalmar a Judas. Judas tem idéia E sempre acalentou o amor da monarquia. Saímos bruscamente abandonando a orgia.

Eis-me de novo a andar na imensidão horrenda... O raio lá por cima encrusa-se, faz renda, E calorosamente ferve a trovoada. O frio corta o pêlo assim como uma espada. Pervagamos assim turbilhonando à toa E creio até andamos perto de Lisboa. Num momento, porém, nós vimos lacerar-se A nuvem sob nós. E do rasgão celeste Nós vimos lá embaixo o mundo, esse disfarce. O mundo estava esguio, esguio tal cipreste. Judas levou a mão ao estúpido bestunto. Pensou. Nós nos soltamos. Rolamos ao chão Viemos embarrar no esquife de um defunto. E Judas foi de ventas dentro do caixão... Caí mais de terror do que de esfalfamento Reconhecendo o horrendo e imundo enterramento.

O cadáver estava ainda não sepulto. Via-se, ao fuzilar, o seu gelado vulto Todo dilacerado e porejando pus, Mas nem um ar de Cristo, nem um ar de cruz... Quanto mais se cavava para ele a cova Mais a terra se upava. Esforços inauditos! "Enterre-o na pedra, no azul da corcova Do velho firmamento. Os animais malditos Que dele façam pasto. Atirai-o no mar. Ou mandem-no meter num tronco secular. Ide-o mergulhar nas águas do Amazonas, Ou ponde-o de conserva em óleo de mamonas. Levai-o para a Itália e num moderno forno De boa cremação mande-o esturricar E botai-o então para servir de adorno Em redoma de vidro e ponde-o num altar..." — Cala-te, rei Filipe, já estás amolando! Tu pensas que é no tempo das Espanhas, quando Tu pintavas o diabo e o clero te aplaudia? O clero hoje não faz o que outrora fazia... Tudo que ele aí disse já fizemos, Judas: Tudo fez como a terra. Urge nos acudas! 'Ô meu senhor Cão-Coxo, eu já não sou moderno. Por isto penso bem. Guardemos lá no inferno O cadáver precioso — Escravidão Cearense. Que siga em corpo e alma. Ele não nos pertence? "Ninguém o quis por lá! Houve muito barulho" Quase que há muito pau, quase que há sarrabulho." Judas pôs-se a pensar. Por fim pediu um cento De possantes diabos. Nas ondas do vento Ei-los com o cadáver às voltas. Eu fico Porque na grande queda arrebentei o bico.

Cá de baixo o Cão-Coxo aplicando a luneta Como quem observa o rabo de um cometa Num céu sem resplendor, sem curva, sem azul, Entrou a perguntar: "Ó Judas, onde o levas? "Aos áureos conjurados negreiros do sul Que são mui bons Adões e muito boas Evas. Eu deixei-os há pouco em bela contradança, Devem, ter bem disposta a excomungada pança! Que melhor, respondei, demônios brasileiros, Túmulo da Escravidão que o bucho dos negreiros?"