Portuguese poem
VI (Não suponham, porém, que o desfrutável…)
by Manuel de Oliveira Paiva (1861–1892)
I
Não suponham, porém, que o desfrutável Chico Apesar de apanhar e de calar o bico, Não sentisse por dentro uns laivos de vingança: Apaixonado estava da gentil criança.
Aquele olhar bravio no auge da paixão Deitando em borbotões o mel do coração; A energia viril, freqüente nas mulheres, Quando feridas são da honra nos deveres; Aquela alma divina em corpo todo Artístico, O espírito mais concreto transformando em místico... Confessa, oh bom leitor, aqui muito baixinho, Preso serias tu, também pelo beicinho...
Eis como formigavam na cabeça tonta Do esquálido mancebo — a quem ora desponta A fria luz dos túmulos do ermo cemitério — Os tredos pensamentos, é negócio sério:
— Hás de ser tu, menina, o último troféu Que a fronte me ornará de bravo Macabeu. Me aproximar de ti, ligar-te a teu amante, Fazer ambos felizes — é mui justo e nobre; Mas depois ferirei coa lança o Elefante, Embora o triste sino por finados dobre. Morrerei sepultado ao peso da vitória. Mas de gozar-te, oh anjo, sim, terei a glória.
Assim maquinejava. Inverso general, Que por fazer um bem, quer obter um mal. Um homem que se abate às cousas femininas, As quais, — como as mulheres vis, as messalinas,
Se escancham no cangote aos ricos bestalhões, — Dominam prontamente os ânimos vilões. Chegou o vosso tempo, oh mui gentis crioulas, As saias que vestis mais valem que ceroulas Desses patifes todos — caras delambidas Que desejam gozar, gozar de vossas vidas.
Vos amo grandemente, oh lindas brasileiras, — Oh queirais perdoar minhas febris asneiras! — Mas vós não sejais tolas. Reparai a Iza Como se arrroja as fuças do louco do bordel, A cara lhe arrebenta e por um triz que o pisa. Espatifai o Demo, sois o São Miguel. Sede a Judith sublime da Bethulia vossa, Já que sois o Amor, a segurança nossa.
Ainda maquinava o moço merencório. Escrevendo já vou no meu débil versório: — Izabel, p'ra casar, precisa de fugir, Dinheiro tenho eu — ou, pois, tudo que urgir. Farei, por conseguinte, o belo casamento. Depois, realizarei o desejado intento. E que vingança?! Oh que! terei muitos lauréis! Vou escrever o plano, e, pelos meus papéis, Depois que eu transformar-me na matéria fria, Serei celebrizado por sabedoria. — Izabel me dará por fim o coração Cedendo ao doce peso, ao money gratidão.
II
Como o céu azul, Lindo e luminoso; Que depois trevoso Fica, do vento sul...
Lírio, do paul Surgindo formoso: David, tão saudoso Herdando a Saul...
Gira assim o mundo... Agora mui alto, Agora profundo.
Este crime exalto. — Crime tão imundo?! Meu dever não falto.