Portuguese poem
V (Nem pense que a menina não…)
by Manuel de Oliveira Paiva (1861–1892)
I
Marciana
Nem pense que a menina não possa vir mudar! São moléstias de moça que cuida em namorar. E mesmo...
Mariana
Qual! Comadre!
Marciana
Não creia que o João Lhe vote amor sincero de todo o coração. São meros passatempos da vida de rapaz, Isso, naturalmente, qualquer um homem faz.
Mariana
Mas consentir não posso que um pardo, um leguelhé, A namorar se arroje a quem desigual lhe é. Me sustento de esmola, moro em velha cabana, Sou pobre, miserável; mas hei de honrar aos meus; É este o meu desejo, comadre Marciana; P'ra mim não quero nada, me basta o amor de Deus.
Marciana
Não lhe digo o contrário. Confie em sua neta, Izabel é tão branda!
Mariana
Daquela carrapeta Quem for atrás se arranja. — Mas venha cá comadre, Chame Izabel de parte, faça papel de padre; Vá dar-lhe alguns conselhos; que o tal amor a deixe; Que não seja tolinha...
Marciana
Que o amor é como peixe, Lhe estou dizendo agora...
Mariana
Pois vá cortar a linha Que ao torto anzol agarra; não é sua madrinha? E desatou a velha num berreiro Que até os cães uivaram no terreiro. Marciana jamais consentiria Que aquele amor vingasse; mas dizia — Baseada em seu tempo de donzela — Que era simples namoro, bagatela.
II
Enquanto se mordia a estulta velha Nuns cômicos transportes de pesar; Izabel, a divina, a santa abelha, Servia o amargo mel do verbo amar.
Despira o corpo todo, contemplava-se E nada possuía neste mundo. Oh não! Engano é isto meu profundo... Quanto mais se despia, mais amava-se...
Tudo, tudo possui a virgem pura O céu, o mar e Deus, e Deus também Escraviza-se a santa criatura — Exemplo: a manjedoura de Bethlem.
Tinha raiva dos fios do tecido Que lhe cobria as carnes moreninhas; Como outrora o profeta, o seu vestido Rasga e pisa, estraçalha em mil tirinhas.
Esbofeteia as faces delicadas, Escarra no espelho o vulto seu; Macera as santas carnes com pancadas. Puxa os crespos cabelos cor de breu.
Tem vontade de abrir a fechadura E atirar-se correndo pela rua, Esquecendo o pudor e a candura; Mesmo assim como está chorosa e nua.
E suas companheiras? Miseráveis, Escarnecem da pobre moça branca Que se prende de um pardo aos tons afáveis Suspendida do amor pela alavanca.
Os mimosos sapatos tira e puxa As delicadas meias cor de rosa. Mais livre de roupagens, mais debuxa Sua estátua gentil, mas lacrimosa...
Mas pisando no chão estremeceu Ao contacto da lívida umidade, E foi caindo em si... Depois ergueu O que longe rojara a iracidade...
Ao mesmo tempo ouviu a voz rouquenha Do esquálido Chiquinho, corroído, Que queimara-se ao fogo como a lenha, Era carvão bem sujo e denegrido.
III
Depois abrindo a porta, Foi descobrindo o moço — Um conjunto de osso, Mas que de amor se importa. —
Há muita coisa torta. Há pigmeu colosso, Há templos calabouço, E crime até que exorta!...
Na festa, o bacorim Nem traz à mente a idéia Da lama suja e ruim...
Assim, enxerga a dêia No moço um querubim!... — Pobre gentil tetéia!
Iza
Eu preciso de ti, meu bom, leal Chiquinho! Quer do bem, quer do mal conheces o caminho... A minha santa avó, parece estar maluca, Não quer em sua gente a casta mameluca... Quando me ensinaram geografia Me disseram que lá n'amplidão fria Todos os astros não são sóis; Que lindas estrelas para nós, De perto menos brilham do que a Lua: A luz que elas têm não é sua; Além disto mui diversos astros Se reclinam do céu nos negros lastros; E quantas árvores diversas São do mesmo chão juntas imersas! Carne e osso, brancura e rigidez, O vermelhão e a palidez, Só dividem-se ao golpe da morte. A neve e a montanha, o fraco e o forte, Eternamente dormem juntas...
Chico
Só as frágeis cabeças bestuntas Se atrevem a cortar fios bem feitos, Lícito amor, laços estreitos Co'a foice enferrujada — os preconceitos...
Iza
Oh protege-me, pois, mancebo inteligente... Foi naquela manhã que foste a Mecejana, Que esta filha sem pais, que adora Marciana, Sentiu da tempestade o raio onipotente.
Era noite em minha alma. O sol já do nascente Tinha acendido a luz. Também a pobre humana Sentiu nos olhos seus a chama desumana, Mais quente do que o sol... porque não tem poente!
Chico
E esse marceneiro, o tal Senhor João Saberá compensar-te o amor que lhe dedicas? Teu sol também queimou seu rijo coração?
Iza
Nem eu consinto dúvida!
Chico
E eu... sou um Maricas, Um protetor de amores?!
Iza
Não gracejes, não!
Chico.
Jamais! Tu dás-me um beijo, arranjo as tuas tricas.
À proporção que Iza lhe falara O olhar e o coração se incendiara... Oh! Mas bela atracou o tal Chiquinho... Tão rijo bofetão deu no focinho, Por ter audácia de pedir boquinha... Dá co'a múmia no chão, quase espezinha, Se não o acode rápido a Maria. E o sem vergonha ria!