Portuguese poem
Ii
by Manuel Maria Barbosa du Bocage
E inda dizem que Deus é vingativo, Se com razão sacode o raio ardente?… Antes te louvarei, por que não déste O justo premio a muitos, que arrojando Contra si tremendissima sentença Julgam pela grandeza propria o crime, E não querem fazer seu peito escravo No castigo, que affirmam ser-lhes duro! Será eterna a pena n'esses peitos, Que d'um Deus se não movem ao interesse, E o desaggravo indomito attribuem Menos ao Sempiterno, do que a todos Temendo perdurar como a mesma alma, Verdades proferidas nos altares, Onde ha satisfação, e não cruezas: Vemos ali ministro venerando, Longe de renovar suppostos odios, Defendendo nos crimes a innocencia, Primeiro recusando alto dominio, C'o peso superior por tempo incita: Eil-o na honra altissima abrasado, Com sangue apaga inundações de fogo; Testemunhas do zelo a voz, e a espuma; Mandado por um Deus, tão bom como elle, Pede ao Senhor não multiplique exemplos Com que já se consterna a phantasia! Victima impura de outra vez no povo, Livremente seu povo entrega á morte: Defuncto o servo, que esfriava os raios, Punia sem limite o Omnipotente; Inda lembra ao Sinai tremer-lhe a terra, Quando Adonai lhe intima seus decretos. Ah! Moysés, que não podes ser astuto, Contra a publica voz, que assim troveja! O teu povo confessa os seus furores, Quando entregue de um Deus á justa raiva Sua clemencia, succumbia á tua: Na inteireza, que tens, creio; confio Que a tocha da verdade te precede, Para mais deslumbrar aos que te offendem: Que se o ferro fatal já não se ensopa No resto d'estas animadas cinzas, Da lei da graça os divinaes incensos Por disfarçar a pena tornam surdos Á voz interna os que não crêem no inferno: Tremenda lei, se a pena lhe retardas! Mas se lh'a appressa executor propheta Lhe acalma as iras, porque vae, diffunde O pavoroso medo nos sequazes Do idolatra e espantoso fanatismo. Convocam-se os levitas, os quaes matam Aos cumplices de tal atrocidade: Comprimida gemeu a Natureza; Por um Deus os consortes, páes, e filhos Com seu sangue as espadas, vestes tingem: Recobra o páe quem faz o parricidio, E aos campos, que de victimas se alastram Chovem mil novas graças como em rios. Acalmada a justiça a teus clamores, Por honra do teu Deus, servo sedento, Co'um só estrago evitas mil estragos, Ferrando a todos do leão as garras. E tu, impio, as blasphemias que derramas Escusa, lendo a historia dos tyrannos. Os de Israel não foram que este exemplo Tomaram por fazer pesado o jugo; Por uma vil paixão, cruel, não manches Os direitos de um Ser eterno, augusto. De um Deus real Moysés real valido Deu cultos á verdade, corte ao genio, E codigo de leis mais necessario Deu a todos, que a bem de si o imitam, Prova fiel de que um Deus senhor existe.