Portuguese poem
Ii
by Manuel Maria Barbosa du Bocage
Oh Deus, não oppressor, não vingativo, Não vibrando co'a dextra o raio ardente Contra o suave instincto, que nos déste; Não carrancudo, rispido arrojando Sobre os mortaes a rigida sentença, A punição cruel, que excede o crime, Até na opinião do cego escravo. Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro! Monstros de vís paixões, damnados peitos Regidos pelo sofrego interesse (Alto, impassivo numen!) te attribuem A cholera, a vingança, os vicios todos, Negros enxames, que lhe fervem n'alma! Quer sanhudo ministro dos altares Dourar o horror das barbaras cruezas, Cobrir com véo compacto e venerando A atroz satisfação de antigos odios, Que a mira poem no estrago da innocencia, Ou quer manter asperrimo dominio, Que os vaivens da razão franquêa, e nutre: Eil-o, em sancto furor todo abrasado, Hirto o cabello, os olhos côr de fogo, A maldição na bocca, o fel, a espuma, Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle, Eil-o citando os horridos exemplos Em que aterrada observe a phantasia Um Deus o algoz, a victima o seu povo: No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte, Envolto em nuvens, em trovões, em raios De Israel o tyranno omnipotente; Lá brama do Sinay, lá treme a terra! O torvo executor dos seus decretos, Hypocrita feroz, Moysés astuto, Ouve o terrivel Deus, que assim traveja: «Vae, ministro fiel, dos meus furores! Corre, vôa a vingar-me: seja a raiva De esfaimados leões menor que a tua: Meu poder, minhas forças te confio, Minha tocha invisivel te precede: Dos impios, dos ingratos, que me offendem, Na rebelde cerviz o ferro ensopa: Extermina, destroe, reduz a cinzas As sacrilegas mãos, que os meus incensos Dão a frageis metaes, a deuses surdos: Sepulta as minhas victimas no inferno, E treme, se a vingança me retardas!…» Não lh'a retarda o rabido propheta; Já corre, já vozêa, já diffunde Pelos brutos, attonitos sequazes A peste do implacavel fanatismo: Armam-se, investem, rugem, ferem, matam, Que sanha! que furor! que atrocidade! Foge dos corações a natureza; Os consortes, os paes, as mães, os filhos Em honra do seu Deus consagram, tingem Abominosas mãos no parricidio: Os campos de cadaveres se alastram, Susurra pela terra o sangue em rios, Troam no polo altissimos clamores. Ah! Barbaro impostor, monstro sedento De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos, Serena o phrenesi, reprime as garras, E a torrente de horrores, que derramas, Para fundar o imperio dos tyrannos, Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo De opprimir seus eguaes com ferreo jugo; Não profanes, sacrilego, não manches Da eterna divindade o nome augusto! Esse, de quem te ostentas tão valido, É Deus do teu furor, Deus do teu genio, Deus creado por ti, Deus necessario Aos tyrannos da terra, aos que te imitam, E áquelles, que não crêm que Deus existe.