Versos Portuguese Manuel Maria Barbosa du Bocage I

Portuguese poem

I

by

Listen in the reader

Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia, Que os beneficos céos, os céos piedosos Exigem nossos ais, nossos suspiros Em vez de adorações, em vez d'incensos? Credula, branda amiga é falso, é falso: Longe a cega illusão. Se ambos sumidos Em solitario bosque, e misturando Doces requebros c'os murmurios doces Dos transparentes, garrulos arroios, Sempre me ouvisses, sempre me dissesses Que és minha, que sou teu; que mal, que offensa Nosso innocente ardor faria aos Numes? Se acaso reclinando-te comigo Sobre viçoso thalamo de flores, Turvasse nos teus olhos carinhosos Suave languidez a luz suave; Se os doces labios teus entre meus labios Fervendo, grata Lilia, me espargissem Vivissimo calor nas fibras todas; Se pelo excesso de ineffaveis gostos Morressemos, meu bem, d'uma só morte; E se Amor outra vez nos désse a vida Para expirar de novo: em que peccára, Em que afrontára aos céos prazer tão puro? A voz do coração não tece enganos, Não é réo quem te segue, oh Natureza: Esse Jove, esse deus, que os homens pintam Suberbo, vingador, cruel, terrivel; Em perpetuas delicias engolphado, Submerso em perennal tranquillidade Com as acções humanas não se emb'raça: Fictos seus olhos no universo todo, Em todos os mortaes, n'um só não param: As vozes da razão profiro, oh Lilia! É lei o amor, necessidade o gosto: Viver na insipidez é erro, é crime, Quando amigo prazer se nos franquêa.