Portuguese poem
A um Violinista
by Olavo Bilac (1865–1918)
Quando do teu violino, as asas entreabrindo Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas, Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo Os seus cofres de pérolas,
- Minhas crenças de amor, esquecidas em calma No fundo da memória, ouvindo-as recebiam Novo alento, e outra vez do oceano de minh'alma, Arquipélago verde, à tona apareciam.
E eu via rutilar o meu amor perdido, Belo, de nova luz e novo encanto cheio, E um corpo, que supunha há muito consumido, Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.
Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista! E minh'alma revia, alucinada e louca, Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista, Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.
Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto, Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas De um cemitério, vai achar vivas a um canto As suas ilusões que acreditava mortas,
E ficava a pensar... como se não partia Essa fraca madeira ao teu toque violento, Quando com tanta febre a paixão se estorcia Dentro do pequenino e frágil instrumento!
Porque, nesse instrumento, unidos num só peito, Todos os corações da terra palpitavam; E havia dentro dele, em lágrimas desfeito, O amor universal de todos os que amavam,
Rio largo de sons, tapetado de flores, A harmonia do céu jorrava ampla e sonora; E, boiando e cantando, alegrias e dores Iam corrente em fora...
A Primavera rindo esfolhava as capelas, E entornava no chão as ânforas cheirosas: E a canção acordava as rosas e as estrelas, E enchia de desejo as estrelas e as rosas.
E a água verde do mar, e a água fresca dos rios, E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente, E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios, Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:
- Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava! O amor, caudal de fogo atropelada e acesa, Entrava pelo sangue e pela seiva entrava, E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!
E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio, O teu pobre violino, o teu amor primeiro: E inda nas cordas há, como um leve arrepio, A última vibração do arpejo derradeiro...
Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano, Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis, Pairam constelações virgens do olhar humano, Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:
- Assim no teu violino, artista! adormecido À espera do teu arco, em grupos vaporosos, Dorme, como num céu que não alcança o ouvido, Um mundo interior de sons misteriosos...
Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento! Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa! E ele se embeberá dos perfumes que o vento Traz dos frescos desvios do vale e da floresta.
Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos! As rosas se abrirão em suas cordas rotas! E ele derramará sobre os verdes caminhos Da antiga melodia as esquecidas notas!
Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores... Os astros sorrirão de amor na imensa esfera... E a terra acordará para os novos amores De nova primavera!
Porque, como Terpandro acrescentou à lira, Para a tornar mais doce, uma corda mais pura, Que é a corda onde a paixão desprezada suspira, E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;
Também desse instrumento às quatro cordas de ouro, O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade, - Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro Eterno e a eterna dor da corda da Saudade
É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca, E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga, Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca Do primitivo amor e da beleza antiga...
Para trás! para trás! Basta um simples arpejo, Basta uma nota só... Todo o espaço estremece: E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo Quase morta de dor, Madalena aparece...
Ao luar de Verona, a amorosa cabeça De Julieta desmaia entre os braços do amante: Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça, E na devesa em flor a cotovia cante...
Viúva triste, que à paz do claustro pede alivio, Para a sua viuvez, para o seu luto imenso, Branca, sob o livor do escapulário níveo, Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...
E na suave espiral das melodias puras, Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes, Mostrando ao meu amor as suas amarguras, Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.
Canta! o rio de sons que do seio te brota E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando, E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota, Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;
Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta, Refrescando os rosais, e, em leve burburinho, Um gracejo segreda a cada borboleta, E segreda um queixume a cada passarinho;
Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento Abre maternalmente o regaço das águas, - É o rio perfumado e azul do Esquecimento, Onde se vão banhar todas as minhas mágoas.