Versos Portuguese Olavo Bilac Os Meses

Portuguese poem

Os Meses

by (1865–1918)

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Janeiro

Coro das crianças:

Venham os meses desfilando! Cante cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês...

Janeiro:

Eu sou o mês primeiro, O cálido Janeiro! Ouvi minha canção! Dou festas e presentes... E os corações contentes, Quando apareço, estão. Quando apareço, os sinos Começam cristalinos, A erguer o alegre som. Trago para as crianças Afagos, esperanças, E festas de Ano-Bom. Mas, se a alegria espalho, Desejo que o trabalho Vos possa reunir: Meses, eu vos saúdo! Eu sou o mês do estudo: As aulas vão se abrir!

Coro das crianças:

Saia da roda o mês primeiro! Prossiga a dança jovial! E entre na roda Fevereiro, Que é o belo mês do Carnaval!

Fevereiro

(Coro das crianças:)

Venham os meses desfilando! Cante cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês...

Fevereiro:

Fevereiro, muitas vezes, No meio dos doze meses, É o mês mais jovial. É o mês da mascarada, Da alegria desvairada, Das festas do Carnaval. Saem à rua os diabos, De longos, vermelhos rabos, E caras de horrorizar, E o velho, que, dando o braço Ao dominó, e ao palhaço, Diz graçolas, a pular. Brincai! por estes treze dias De festas e de alegrias, Os vossos livros deixai! Para alegrar vossas almas, Batei aos máscaras palmas, — Depois... aos livros voltai!

(Coro das crianças:)

Saia da roda Fevereiro, Pois já passou a sua vez! Entre na roda o mês terceiro! Venha outro mês! venha outro mês!

Março

(Coro das crianças:)

Venham os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês.

Março:

Março, que se adianta, Traz a Semana Santa, Em que Jesus morreu: Foi pela Humanidade Que ele, todo bondade Viveu e padeceu. Há luto na cidade... Quem se humilhar não há-de, Pensando na Paixão? Na igreja os órgãos cantam, E as almas se levantam, Cheias de gratidão. Orai também, crianças! E, suspendendo as danças, Lembrai-vos de Jesus, Que, mártir voluntário, Morreu sobre o Calvário, Nos braços de uma cruz.

(Coro de crianças:)

Março morreu! Prossiga a dança! Prossiga a ronda juvenil! E vamos ver que mês avança: É o mês de Abril! É o mês de Abril!

Abril

(Coro de crianças:)

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos,escutando O que nos conta cada mês!

Abril:

Eu sou Abril! O seio Tenho cheiroso, e cheio De frutos, e de flores. Abril o outono encerra: Já pesam sobre a terra Os últimos calores. Foi neste mês que, um dia, O ódio da tirania Um mártir consagrou. Saudai o Tiradentes, E os sonhos resplandentes Que o seu Ideal sonhou! Quis ver a Pátria amada Do jugo libertada, Digna do seu amor... — Vós, decorai-lhe a história, Honrando-lhe a memória! Saudai o Sonhador!

Coro das crianças:

Um novo passo agora ensaio: Dancemos todos outra vez! Entre na toda o mês de Maio, Saia da roda o quarto mês.

Maio

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Maio:

Dai-me vivas! Dai-me palmas! Exultem todas as almas, Cheias de um vivo fulgor Todo o Brasil, congregado, Saúde o mês consagrado da Liberdade e do Amor! A grande raça oprimida Abri as portas da vida, As portas da redenção! Mudei em risos as dores, Mudei em tufos de flores Os ferros da escravidão! Treze de Maio! A desgraça Findou de toda uma raça! — Aos beijos, dando-se as mãos Os brasileiros se uniram, e o cativeiro aboliram, Ficando todos irmãos.

Coro de crianças:

Maio já deu o seu recado... Prossiga, em danças, a função! Entre na roda o mês amado, O alegre mês de São João!

Junho

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alviçareiras, Ardem, crepitam fogueiras... — E os balões de São João Vão luzir, entre as neblinas, Como estrelas pequeninas, Entre as outras, na amplidão. Não há casinha modesta Que não se atavie, em festa, Nestas noites, a brilhar: Não se recordam tristezas... Estalam bichas chinesas, Estouram foguetes no ar. Fogos alegres, pistolas, Bombas! ao som das violas, Ardei! cantai! crepitai! Num largo e claro sorriso, Seja a terra um paraíso! Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio... Vamos os corpos aquecer, Acelerando o rodopio... — Pode outro mês aparecer!

Julho

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Julho:

Mais curtos são os dias... As noites são mais frias, E custam a passar... Que cômodo o descanso, Na calma, no remanso, Na placidez do lar... Que paz, e que franqueza, Quando, ao redor da mesa, À luz do lampião, A gente se congrega, E ao júbilo se entrega De doce comunhão! Amigos, estudemos! E esta estação saudemos Bondosa, que nos traz As longas noites calmas Que dão às nossas almas O Amor, o Estudo e a Paz!

Coro de crianças:

O mês de julho oculta o rosto... O seu encanto se desfez... Entre na roda o mês de agosto! Entre na dança o oitavo mês!

Agosto

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Agosto:

Com as chuvas derradeiras, Molham-se as verdes palmeiras E os canteiros do jardim. Já que o tempo não melhora, Deixemos em paz lá fora O balanço e o trampolim... Depois das lições, abramos Livros de contos; leiamos As ardentes narrações De aventuras, de viagens Por inóspitas paragens E por selvagens sertões... — De explorações arrojadas Feitas em zonas geladas, Em zonas de vivos sóis; E percorramos a História, Honrando e amando a memória Dos justos e dos heróis!

Coro de crianças:

Fugiu Agosto! Pede entrada Um novo mês que nos vai dar A Primavera perfumada! É o nono mês que vai entrar!

Setembro

Coro de crianças:

Passem os meses, desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Setembro:

Eu trago a primavera; Trago a aprazível era De universais festins; Mais belas, mais viçosas, Surgem sorrindo as rosas E as dálias nos jardins. Sou o jovial setembro! E as brasileiros lembro A data sem rival, Em que o Brasil potente, Ficou independente Do velho Portugal. As vozes elevemos Em hinos, e beijemos O pavilhão gentil, Que nos seu lema encerra O ideal da nossa terra, A glória do Brasil!

Coro de crianças:

Adeus, setembro! Já descubro, Cheio de flores, a cantar, Lépido e alegre, o mês de Outubro, Que em nossa roda quer entrar!

Outubro

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Outubro:

Foi neste mês que, por mares Cheios de névoas e azares, Cristóvão Colombo viu Um novo e esplêndido Mundo Surgir do Oceano profundo... E a América descobriu. As intrigas, os perigos, A inveja dos inimigos Não o puderam vencer; Viu passarem as procelas Sobre as suas caravelas, Sem a esperança perder. Glória ao Gênio destemido, Que navegou conduzido Pela sua intrepidez! Ergamos a voz em festas Àquele que estas florestas Viu pela primeira vez!

Coro de crianças:

Um outro mês já pede entrada: Deixem-no entrar, que é sua vez! Em nossa roda bem formada, Entre cantando um outro mês!

Novembro

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Novembro:

Neste mês, compremos ramos De belas flores, e vamos Aos cemitérios orar! Só pode ser bom na vida Quem, com calma comovida, Sabe os mortos respeitar. Visitemos os finados, — Aqueles, que, descansados, Dormem o sono final! — Mas, logo depois, cantemos! E com hinos celebremos Nossa data nacional! Pátria que todos amamos! Aos teus pés depositamos Saudações e flores mil! Sempre sobre a tua história Fulgure a estrela da Glória! Deus engrandeça o Brasil!

Coro de crianças:

Dançai, dançai mais vivamente! Saia Novembro, e entre, a cantar O mês querido que, contente, As férias vem anunciar!

Dezembro

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando! Venha cada um por sua vez. Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês!

Dezembro:

Deixemos as coisas sérias! Sou o belo mês das Férias, O belo mês do Natal! Crianças! tendes saudade Da casa, da liberdade, Do carinho maternal? Sou o belo mês da Infância! — Quem trabalhou com constância, Debalde não trabalhou: As aulas estão suspensas; Tem prêmios e recompensas Todo aquele que estudou. Quem estudou, finalmente, Recebe a paga, contente, Do sacrifício que fez... — Férias, colégios fechados E livros abandonados!... Eu sou das férias o mês!

Coro de crianças:

Inda uma vez dancemos rindo! Vamos às casas regressar... O ano acabou! Dezembro é findo! Vamos agora descansar!