Versos Portuguese Olavo Bilac Sacrilégio

Portuguese poem

Sacrilégio

by (1865–1918)

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Como a alma pura, que teu corpo encerra, Podes, tão bela e sensual, conter? Pura demais para viver na terra, Bela demais para no céu viver.

Amo-te assim! - exulta, meu desejo! É teu grande ideal que te aparece, Oferecendo loucamente o beijo, E castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, à fronte conservando A parra e o acanto, sob o alvor do véu, E para a terra os olhos abaixando, E levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva O amor em que me abraso e em que te abrasas, Vejo o teu resplandor arder na treva E ouço a palpitação das tuas asas.

Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes, Os céus se estendem pelo teu olhar, E, dentro dele, os serafins errantes Passam nos raios claros do luar:

Em vão! - descerras úmidos, e cheios De promessas, os lábios sensuais, E, à flor do peito, empinam-se-te os seios, Ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente! Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca. Beijo-a, aspiro-a... Mas sinto, de repente, As mãos geladas e gelada a boca:

Parece que uma santa imaculada Desce do altar pela primeira vez, E pela vez primeira profanada Tem por olhos humanos a nudez...

Embora! hei de adorar-te nesta vida, Já que, fraco demais para perdê-la, Não posso um dia, deusa foragida, Ir amar-te no seio de uma estrela.

Beija-me! Ficarei purificado Com o que de puro no teu beijo houver; Ficarei anjo, tendo-te ao meu lado: Tu, ao meu lado, ficarás mulher.

Que me fulmine o horror desta impiedade! Serás minha! Sacrílego e profano, Hei de manchar a tua castidade E dar-te aos lábios um gemido humano!

E à sombria mudez do santuário Preferirás o cálido fulgor De um cantinho da terra, solitário, Iluminado pelo meu amor...