Portuguese poem
Bucólica
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Foi ao pé do arvoredo, Sob esta sombra orvalhada, Que um dia, muito em segredo, Vim esperá-la na estrada
Mudo, ansioso, palpitante, Por longo tempo esperei-a, Cuidando ouvir, todo instante, Seu leve passo na areia.
Eis que ela, muito assustada, Surge, trêmula e confusa, Com fresca rosa encarnada Florindo as rendas da blusa.
O sol, como um poeta risonho, Doirava o céu, alto e escampo; E nós, perdidos num sonho, Fomos a rir pelo campo.
Que festa pelo caminho! Que sons! Que luz! Que esplendor! Gorjeios em cada ninho, Abelhas em cada flor!
Ela, a correr pelo atalho, Pisando a verde barranca, Umedecia de orvalho A barra da saia branca...
Eu, que a levava de braço, Todo amor, todo ansiedade, Sentia-me, passo a passo, Morrer de felicidade!
Foi uma linda jornada Por montes e carreadores... Ai! Cada sombra na estrada. Ai! Cada moita de flores,
Tudo servia de ensejo, Para eu, com a alma radiosa, Colher a rosa de um beijo, Naquela boca de rosa!
Mas hoje - tudo desfeito... De tanta ingênua poesia, Ficou-me apenas no peito A mágoa que me excrucia
Recordação leve e mansa, Saudade que eu não arranco É a deliciosa lembrança Daquele vestido branco...
Pois nada, ó flor, se assemelha, Nem tem a frescura e a graça, Daquela rosa vermelha Naquela blusa de cassa!