Versos Portuguese Paulo Setúbal A sombra das árvores

Portuguese poem

A sombra das árvores

by (1893–1937)

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Aqui, na solidão destes pinheiros graves, Eu venho, muita vez, a sós, pela noitinha, Ouvir a natureza incompreendida, a minha Amada, a minha amiga, a minha confidente!

Ouvir a natureza incompreendida, a minha Essa apagada voz de surdinas estranhas, Que vem dos ribeirões, que sobe das montanhas, E acorda, dentro dalma, em nossa soledade, Um místico pungir de mágoa e de saudade.

Ah! cada árvore tem uma íntima linguagem! Ah! cada árvore tem, fremindo na ramagem, Uma alma como nós, que nós não vislumbramos, Mas que vibra no ar e palpita nos ramos...

Já repararam quando as brisas vespertinas Sopram, como, a gemer, sofrem as casuarinas? E choram os chorões? soluçam os pinheiros? Murmuram os ipês e cantam os coqueiros Quando o vento, a passar, balouça-os palma a palma? Homens, reparai bem que as árvores têm alma! Reparai que à noitinha, à luz do lusco-fusco, O ruído, os sons da vida, estacam-se de brusco, E cada árvore fica imersa num cismar De quem compreende e sente a dor crepuscular...

Oh! vós que respirais a poeira da cidade, Vós nunca entendereis a doce suavidade, A música dorida, a estranha nostalgia, Que vem da solidão quando desmaia o dia!

Vós nunca entendereis essa rude grandeza. Essa infinita paz, essa imensa tristeza, Que sai do coração da mata bruta, quando Resplandecem no céu os astros palpitando... É preciso viver longe da turba humana, Longe do mundo vão, longe da vida insana, Para sentir, amar, ouvir essa tristeza, Que exala, ao pôr do sol, a maga natureza!

Ai! Quanta vez, eu fico a sós, pela noitinha, Ouvindo a natureza, a inspiradora minha! Ouvindo o pinheiral com seu gemer infindo, Ouvindo a noite, ouvindo as árvores, ouvindo Os ventos, e na volta exígua duma curva, Ouvindo o ribeirão de correnteza turva, Que vai, soturno, uivando o estrépito das águas, Consigo rebramando incompreendidas mágoas...

E assim, no ermo da tarde, escutando, enlevado, Esse vago murmúrio, esse rumor sagrado, Eu quedo-me a cismar num êxtase de crente, Como se eu estivesse a ouvir, confusamente, A própria voz de Deus ecoar na solidão, Povoar a natureza e encher meu coração...