Versos Portuguese Paulo Setúbal A queimada

Portuguese poem

A queimada

by (1893–1937)

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A Queimada! A Queimada! é uma fornalha! A irara pula, a cascavel chocalha. CASTRO ALVES.

Agôsto. Pôr de sol. Paisagem silenciosa. A natureza inteira, aos poucos, adormece. Triste e vago é o planger da hora vesperal. De súbito, na mata, eleva-se, medrosa, Crespa serpe de fogo. Aumenta. Engrossa. Cresce. E expande-se, num surto, ao seco matagal!

É a queimada! a queimada! É a rubra carbonária Que vem, de archote em punho, em meio à ramaria, Desencadeando a fúria o ímpeto das chamas. Conflagra. Ruge. Sobe aos troncos. E, incendiária, Vomita fogo, enraiva as flamas, desvaria, Os caules despenhando e calcinando as ramas!

Nada resiste, nada, ao seu furor sanhudo: Perobas, guarantãs, jequitibás, paus-d'alho, Belos troncos anciãos, troncos patriarcais, Um século a ensombrar o mato verde e rudo, Um século a florir os seus robustos galhos, Onde cantaram sempre os ninhos e os casais, Tudo flameja e rue ao vórtice nefando. Os animais, fugindo, escondem-se trementes; Voam, tontas no espaço, as aves com terror; Um mar de cinza ulula, crepitando; Estalam os cipós; chocalham as serpentes; E estouram os bambus rachando com fragor.

O ar sufoca e pesa; a fumarada voa. E a sublime beleza horrível da queimada, Atinge o áureo esplendor de sua destruição. Chispam fagulhas no ar; o grande incêndio atroa; E a escampada planície esplende, iluminada, Ao sombrio fulgor do vermelho clarão!

Ah! Quem pudesse ouvir, nessa soturna festa, O que diria, ardendo, a alma da floresta! Ah! Quem pudesse ouvir os íntimos gemidos, As lágrimas, a dor, os uivos, os lamentos Que soltaria então o coração das matas, A sentir e a escutar os baques e estampidos Das árvores, ruindo em tombos violentos, Na voragem feroz das chamas escarlatas!

E a noite, a clara noite, ouvindo, constelada, O ribeirão passar, águas negras, aos roncos. Povoando a solidão de incompreendido choro, Como para abençoar a sinistra queimada, Por sobre aqueles mil cadáveres de troncos, — Desenrolava o manto azul broslado de ouro....

Um ano após, dourando os campos, florescia Bela roça de milho aos trilos dos casais. Do seio bom da terra a vida ressurgia, Na verde floração dos tenros milharais.

Cantando, novamente, os pássaros voavam; Ao vento, que zunia, as hastes se encurvavam; E dos ramos da flor, da clara luz do dia, Dos cantos dos sabiás e das espigas louras, Remontavam ao céu os ritmos de alegria Que sobem das lavouras!

A Morte é assim como a queimada. Brandindo a sua negra espada, Esmigalha, passando, os altos potentados, Os príncipes e reis, os sábios e oradores, Os generais de gênio, os poetas aureolados, — Fortes cerebrações de grandes pensadores.

Mas, por sobre os troféus que vai deixando a Morte, Sobre os destroços bons da geração que passa, Sobre o que cobre e tampa a brancura das lousas, Uma outra geração ressurge inda mais forte, Renasce, com mais vida, outra mais bela raça, Na eterna evolução dos homens e das coisas...