Versos Portuguese Paulo Setúbal A fazenda

Portuguese poem

A fazenda

by (1893–1937)

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Seis horas... Salto do leito. Que céu azul! Que bom ar! Ai, como eu sinto no peito, Moço, vivo, satisfeito, O coração a cantar!

No meu quarto, alegre e claro, Há rosas e girassóis. Eu, com enlevo, reparo No mínimo do seu preparo, Na alvura dos seus lençóis.

Que doce encanto, e que graça, Nesta simpleza aldeã, Têm, sobre os vãos da vidraça, Leves cortinas de cassa, Bailando ao sol da manhã!

E da florida janela Que eu abro de par em par, — Verde painel, larga tela, Da cor mais viva e mais bela, Desdobra-se ao meu olhar!

A manhã, que é fresca e branda, A rir, gloriosa e feliz, Doira a casa veneranda, Com sua quieta varanda Cheirosa de bogaris...

Um renque de altos coqueiros Circunda o velho pomar; Toscos, enormes tabuleiros, Ficam em frente os terreiros, Com grãos em coco a secar.

Num quadro, curvo e sozinho, Um pobre negro, o Bié, A passo, devagarinho, Com seu rumoroso ancinho, Lá vai, rodando o café...

Depois - a máquina, a tulha, O alpendre, o farto paiol: Ah, como a roça se orgulha De ver subir a fagulha Que lança a máquina ao sol!

Branca, entre tufos, a escola, Na estrada logo se vê: Aí, nessa casinhola, A filha de nhá Carola Vive a ensinar o a b c.

Fulgem, na estrada tranqüila, Casinhas brancas de cal: É a colônia que cintila, Graciosa como uma vila, Risonha como um pombal.

Ao longe, o pasto, a cancela, — Um boi deitado no chão: Paisagem rude e singela, Daria fina aquarela De puro estilo aldeão.

E além, para lá da ponte, Ao lado do matagal, Por sobre as lombas do monte, Por todo o imenso horizonte, — Alastra-se o cafezal!

O olhar, tonto, se extasia Na cena rústica e chá; E a gente sente a poesia. Sente a radiosa alegria De tão soberba manhã!

Absorto no panorama Que assim contemplo, de pé, Eis que uma velha mucama, Surgindo à porta, me chama: "Nhonhô, tá pronto o café...