Versos Portuguese Paulo Setúbal A gente

Portuguese poem

A gente

by (1893–1937)

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Saio a passear. .. Claro e quente, O sol na altura sorri. Eu sigo, de alma contente, Saudando esta boa gente Dos sítios onde nasci!

Lá vou, por entre este povo, Com tanta ingênua emoção, Que eu, sem querer, me comovo, Revendo agora, de novo, Nhô Lau, seu Juca, o Bastião...

Aquele... Nossa Senhora!... — Aquele é o seu Nicanor: O mesmo, tão curvo agora, Que foi, nos tempos de outrora, O meu grande professor!

É um velho... Um republicano Desde o tempo que lá vai! Vive a falar no Floriano, Dizendo que é veterano Da guerra do Paraguai...

E este?... O Mendonça afamado, O célebre caçador! Traz a lapeana de lado, E um perdigueiro malhado Que salta no carreador.

Rude, feroz, barba intonsa, Com a sua desfaçatez, A todos narra o Mendonça Terríveis caçadas de onça, — Caçadas que nunca fez.

Lá está na foice, roçando, O velho Jeca Morais: Caboclo bom, gênio brando, Apenas, de quando em quando, Bebe algum trago demais.

No dia em que se endominga, Vai ao povoado passear; E à volta, cheirando à pinga, Discute, provoca, xinga, Querendo à força brigar!

Junto, o Nicola persiste Em consertar um moirão; Não sei se no mundo existe Outro violeiro mais triste Que esse infeliz mocetão.

Louca paixão, louca e imensa, Sempre em angústias o traz: É que ele, o poeta, só pensa Na filha do Quim Proença, Que gosta de outro rapaz.

Quando o luar desenrola, No espaço, o místico alvor, Sonhando um sonho, o Nicola Põe-se a chorar na viola As mágoas do seu amor...

Guiando os bois do seu carro, Que ringe num alto som, Nhô João, na estrada de Barro, Lá vai, pitando um cigarro, Cheiroso de fumo bom.

Com seu enorme trabuco, Calça xadrez, pé no chão, Na venda do Zé Macuco, Sentado à mesa do truco, — Que noites passa nhô João!

Ao longe, num largo trote, Com elegâncias de peão, — Bombacha, espora e chicote - Passa na estrada o Mingote, Montado num alazão.

Moço dos mais arrogantes, De claro olhar, claro e azul, Conta as paixões delirantes Que teve em terras distantes, Ao vir com tropas do Sul...

Eu sigo... Festivamente, O sol na altura sorri; Assim, risonho e contente, Revejo toda esta gente Dos sítios onde eu nasci...