Portuguese poem
À beira do caminho
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Por essas tardes plácidas do campo, — Tardes azuis de firmamento escampo Eu vou, través de longos carreadores, Sentar-me num barranco, ermo e distante, Sentindo o fresco aroma penetrante Que vem da madressilva aberta em flores.
Tudo me entrista e punge nestas terras! Os mesmos cafezais. As mesmas serras. A mesma casa antiga da fazenda, Que outrora viu, quando éramos meninos, Nossos amores, nossos desatinos, — Toda essa história descorada em lenda!
Quanta saudade! De manhã bem cedo, Saíamos os dois pelo arvoredo, De alma contente e exclamações na voz. Como éramos apenas namorados, E andássemos, a rir, de braços dados, Os camponeses riam-se de nós!
Era dezembro. Florescia o milho, Verde e glorioso como o nosso idílio. Que lindas roças! Que estação aquela! Toda a velha fazenda parecia, Com sua larga e rústica alegria, Mais cheia de aves, mais ruidosa e bela!
Ainda guardo, intata, na memória, Aquela ingênua e deliciosa história, Que foi o meu e o teu primeiro amor. E ai! que recordação, que duro travo, Lembrar que eu fui teu rei o teu escravo, Saber que fui eu teu servo e teu senhor!
E cismo... Cismo... A tarde vai tombando. De lado a lado, claras, azulando, Destacam-se as colinas no horizonte. Tristonha, a várzea na amplidão se perde. Lá em baixo um bambual sombrio e verde. Um fio d'água. Uma arruinada ponte.
Assim, ao pôr do sol, triste e sozinho, Sentado num barranco do caminho, Sem que ninguém meu coração compreenda, Olho a mata, olho os campos, olho a estrada Ouvindo a melancólica toada Que chora, ao longe, o piano da fazenda...