Portuguese poem
De volta
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Minha terra... Ai, com que abalo, Com que sincera emoção, Eu, dando rédea ao cavalo, Margeio este fundo valo, — Caminho do meu torrão!
Tudo, no ar, festa e brilho! E é com a alma a vibrar, Que eu corto as roças de milho, Por este sinuoso trilho Que à minha terra vai dar.
Ninhos... flores... que tesouro! Que alegria vegetal! À luz do sol, quente e louro, Com seus penachos cor de ouro, — Como é lindo o milharal!
Abelhas, asas espertas, Num revoejo zumbidor, poisam trêfegas, incertas, Pelas corolas abertas Das parasitas em flor...
Na mata, de quando em quando, Soa o trilar dos nambus. Os pintassilgos, em bando, As frontes sonorizando, Gorjeiam em plena luz!
E eu sigo... Vou enlevado Nesta poesia sem fim. Bem sinto, de lado a lado, Que um trecho do meu passado Em tudo ri para mim!
Quem há, aí, que compreenda Minha brusca, alta emoção, Ao ver, ao longe, a fazenda, Com sua chata vivenda, Surgir no azul do espigão?
Aqui, nesta boa roça, São todos amigos meus. Por isso, a cada choça, Toda gente se alvoroça Para vir dizer-me adeus.
É o Quincas! É o Zé Colaço! O Juca Elias! Nhô João! Todos eles, quando eu passo, Num longo, num rude abraço, Apertam-me ao coração!
E aquele? Céus! Nhô Claudino! O olhar em pranto ele traz... É um velho, meigo e franzino, Que outrora me viu menino, E que hoje me vê rapaz...
Chego... Que festa infinita! Como eles me querem bem! Até a pobre da nhá Rita, Com seu vestido de chita, Corre a abraçar-me também!
Dentro, sem mais demora, Traz-me a crioula um café. Ai! É a mesma sala de outrora, Com a mesma Nossa Senhora Ao lado de São José!
Aqui, em meio a isto tudo, Eu - que ironia cruel! - Tenho o desejo sanhudo De espedaçar o canudo Com a carta de bacharel,
E, na doçura que encerra Esta simpleza daqui, Viver de novo, na serra, Entre as gentes desta terra, A vida que eu já vivi...