Portuguese poem
Chiquitita
by Paulo Setúbal (1893–1937)
"Bom dia! Sempre bonita?" — É assim que eu vou, de manhã, Saudar a linda Chiquita, Que, toda em frios, tirita No seu vestido de lã.
Maneiras brandas e amenas, Olhos de negro fulgor, Chiquita, a flor das morenas, Com seus quinze anos apenas, É um mimo de graça e amor.
De estranho tédio ferida No seu colégio francês, Quisera, langue e abatida, Mudar um pouco de vida, Passar nos campos um mês.
E em festa e risos, agora, Nos ares bons do sertão, Chiquita se revigora, E alegra-se, e viça, e cora, Como uma rosa em botão.
Mal surge, fresca e orvalhada, No céu azul, a manhã, Saímos nós pela estrada, Com alma leve, e dourada Pela alegria mais sã.
Que graça!... Ela tudo admira: O campo, as roças, os bois. Às vezes passa um caipira, Que, com espanto, nos mira, E fica a rir de nós dois!
Em casa, o dia inteiro, ela Faz mil perguntas pueris. Ah, como é ingênua e singela! Conversa. Ri. Tagarela. É um pássaro feliz!
Sol a pino, a todo transe, Quer ir saltar no café; E à volta, sem que descanse, Começa a ler um romance, Ou trabalhar num croché
De quando em quando, um espinho Sangrar o peito me vem. A tarde inteira, sozinho, Sentado ao pé do caminho, Fico a lembrar-me de alguém.
Eis que ela chega, de branco, Cabelo negro, em bandós; Festiva, num riso franco, Ali, no pobre barranco, Sentamos os dois a sós...
Na tarde azul, merencória, Dum sossego espiritual, Chiquita, como uma glória, Repete-me toda a história Da vida de colegial.
Então, nesse ermo pacato, Ela, menina e mulher, Relembra, fato por fato, As diversões do internato, Os ralhos da Notre-Mère...
Fala... E eu, ouvindo a macia Brandura do seu falar, Sinto, no olhar que me envia, A doce melancolia Do seu nostálgico olhar.
Não há feitiço que prenda Como o dulçor dessa voz. Assim, sem que ela o compreenda, Chiquita é o sol da fazenda, É a festa de todos nós!