Portuguese poem
Escândalo
by Paulo Setúbal (1893–1937)
ERA costume, à tarde, em frente à Escola, Por entre os homens graves da terreola, Bisbilhotar-se sobre a vida alheia. Nas rodas que tratavam tais assuntos, Aquela história de passearmos juntos Era o supremo escândalo da aldeia!
E o chefe, e o juiz de paz, e o boticário, Teciam o mais negro comentário Ao nosso ingênuo amor, todo feitiço! O próprio padre, um santo e velho cura, Dizia ao ver-nos: "Eis a má leitura! São livros de Zola que fazem isso..."
Mas nós, como pastores de Virgílio, Vivendo então num descuidoso idílio. Sorríamos dos toscos provincianos: E em plena aldeia, desdenhando apodos... Passávamos de braço, entre eles todos, Na glória dos que se amam aos vinte anos!