Versos Portuguese Paulo Setúbal Férias de junho

Portuguese poem

Férias de junho

by (1893–1937)

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De gentes simples e caboclos rudos, Na minha terra existe uma florida E plácida fazenda, Onde eu, longe de livros e de estudos, Esbanjo as férias sem pensar na vida, Em junho, na moenda.

O terreiro é fechado a pau-a-pique, Com porteiras de cedro em cada lado, Que ringem roucamente; Ficam num canto o engenho e o alambique, Onde fazem açúcar e melado, Garapa e aguardente.

Funda lagoa sob a ponte dorme, Em que nadam uns patos de alvas plumas, E bebem juritis; E muito além se estende um campo enorme Um campo de juás e de guaxumas, Crivado de cupis.

O ribeirão que tomba dum penedo, Faz tocar o volante da engrenagem Que as canas remoinha; E mal desponta o sol de manhã cedo, Começa a faina imensa da moagem Que acaba de tardinha.

Carros de bois, atravessando as roças, Trazendo canas aos montões ceifadas, Passam chiar-chiando; E vêm do canavial as vozes grossas Que entoam sem cessar os camaradas, Entre ioçás foiçando!

Bem cedo, na fornalha, até ao sol posto, Flameja uma possante labareda, Crepitam largas achas; E o engenho todo exala um cheiro a mosto — Um forte cheiro de garapa azeda Que vem das amplas tachas.

E quando, à tarde, por detrás do atalho, O sol expira entre golfões sangrentos De sangue que espadana, — Cessa o rumor da faina e do trabalho: E os ásperos caboclos poeirentos Recolhem-se à choupana.

Tudo se aquieta... Frêmulas, se engastam As estrelas na abóbada infinita. Hora tristonha e suave. Os bois ruminam. Os cavalos pastam Pára a moenda, o fogo não crepita, Reina um silêncio grave.

Somente o Zé Venãncio, na soleira Da sua choça esburacada e antiga, Magoado, se consola, Trovando a ingratidão duma roceira, Cantando uma tristíssima cantiga, Ao som de sua viola...