Portuguese poem
Trecho rústico
by Paulo Setúbal (1893–1937)
Soturna, verde-negra, impenetrável, dorme, Ao sol canicular do estio, a mata bruta: Sertão cerrado e umbroso, em cujo seio enorme, Braceja emaranhada, a galharia hirsuta.
Dorme, escutando, ao longe, a voz do grande rio, Que vem, turbilhonando as águas, campo fora, Romper-lhe o matagal selvático e sombrio, Desbravar-lhe o sertão, desvirginar-lhe a flora.
Rolando, estrepitando as ondas tributárias, Que em seu calcáreo leito os rios vão depor, Vem, como um rei, por entre as brenhas solitárias, Rasgar-lhes a rudez do coração em flor.
Vem, todo azul, a uivar como um revolto oceano, Povoar a solidão dos velhos troncos rudos, O verde tremedal desse trevoso arcano, Com o áspero fragor dos vagalhões sanhudos.
É o Tietê!... Rebramando as turbulentas vagas, Que de tão longe vêm, para tão longe vão, Bufando em gorgolões, espumarando as fragas, Penetra o labirinto escuso do sertão.
Penetra a inextricada e virgem natureza, Com o clamor feroz duma tribo selvagem. Espelhando, no azul da vasta correnteza, O tosco resplendor da rústica paisagem!
Retumba-lhe o bramar dos gritos acachoantes Nessa imensa amplidão de matas brasileiras; Dum lado e doutro lado, as árvores gigantes Ensombram-lhe o pendor das velhas ribanceiras.
Pelos troncos ançiãos, pelos cipós da altura, Viçam, bizarramente, agrestes parasitas; E a densa mataria, esplêndida, fulgura Num rubro carnaval de flores esquisitas.
E à natureza, casta e forte, de nateiros, De tredos socavãos, de florestas estranhas, Guardando, entesourada em séculos inteiros, Uma fecundidade ardente nas entranhas.
Assim, por entre a terra exuberante e boa, Por entre a seiva bruta, o rio que esbraveja, Léguas e léguas vai surdo fragor que atroa, Roncando pelo chão da brenha sertaneja.
A voz se lhe redobra; engrossa-lhe o alarido; Ruge, furiosamente, a correnteza brava; E eis que rebenta, uivando, o horríssono estampido. O férvido acachoar do rouco "Avanhandava".
Já de longe se escuta, hediondo, rebramando Pelos fundos desvios recônditos da mata, Reboando com furor, colérico estrondando, O estrupido brutal dessa brutal cascata!
A túrbida caudal, a ecoar de penha em penha. Rola à beira do abismo as águas ululantes: Remoinha, e ferve, e estoira, e toda se despenha Num fervilhoso alvor de espumas borbulhantes!
Tal como um bandeirante, ousado na conquista, O Tietê, encrespando as vagas cor de prata, Largo, a rugir su'alma heróica de paulista, Embrenha-se outra vez no coração da mata...