Portuguese poem
Escuta
by Pedro de Calasans (1837–1874)
Si para amar-te for myster martyrios, Com que delirios saberei soffrer ! Si de altas glórias for myster a palma, Talvez minha alma possa além colher.
Quebrar cadeias, conquistar um nome, Que não consome o perpassar das eras ; Arcar com a furia de fracundos nortes, Soffrer mil mortes, sem morrer de veras ;
Nas proprias carnes apertar cilicios, Nos sacrificios ter sereno o rosto ; Pisar descalço sobre espinhos duros, Com pés seguros, com signaes de gosto ;
Longe da patria, no paiz mais feio, Do tedio em meio, para amar-te, irei Viver embora sob a zona ardente, E alli contente por te amar serei !…
E a ser amado, si é myster o incenso, Que sóbe denso dos salões aos tectos ; Serei altivo, mas não vou de rastos, Com labios castos mendigar affectos !
E si me odeias, por não ir-me ás salas Dizer-te as fallas de mendaz paixão, E, aos olhos de outros, profanando extremos, Dizer-te : amemos, e apertar-te a mão ;
Me odeia, e muito, que eu não sou da farça, Que o mal desfarça, que desfructa e ri ! Me odeia, e sempre, que eu não desço ao nivel Do pó terrivel, que se arraste ahi !
Dà-me o teu odio, pois não quero—escuta— Beber cicuta, procurando mel. Dá-me o teu odio, mas n’um gráo subido, Embora ungido de amargoso fel !
Dá-me o teu odio por fatal sentença. A indifferença me será peior. Que um sentimento por mim sintas n’alma, Dá-me essa palma de um soffrer melhor !