Portuguese poem
Lagrymas e amores
by Pedro de Calasans (1837–1874)
Quando no espaço bruxoleia a aurora, Mandando á terra divinaes pallores, O doce orvalho, que nos campos chora, São lagrymas e amores.
Nas frescas tardes, nas manhãs de maio, Que aqui renascem, que alli brotam flores, Quando chorarem, o seu pranto amai-o, São lagrymas e amores.
Amai-o; as flores tambem têm segredos, Sim, vivem, morrem, teem sorriso e dores ; Vêde esse pranto, decifrai enredos, São lagrymas e amores.
Quando, transpondo do horisonte a corda, O sol se despe dos gentis fulgores, Brancas estrellas de que o céo se borda, São lagrymas e amores.
Quando na campa, que o cypreste esguio Com a sombra cobre de enluctadas côres, Chorarem brisas, que acordou o estio, São lagrymas e amores.
Quando o arco-iris lá no cèo se arqueia; Para, chovendo, refecer calores, Esses gottejos porque o sol anceia, São lagrymas e amores.
Quando, por noites de luar ameno, O céo se esmalta de cem mil primores, Esses rorejos do subtil sereno São lagrymas e amores.
Quando branquejam, de manhã, neblinas, Cobrindo os campos, o que são ?–vapores. Que o pranto gera das canções divinas, São lagrymas e amores.
Chrystaleas aguas, que o Amazona atira Nas nossas terras a trajar verdores, E os sons cadentes, que eu na matta ouvira, São lagrymas e amores.
As niveas perolas de nitente alvura, Que a fonte clara salpicou nas flores, Serão segredos de amorosa jura ? São lagrymas e amores.