Portuguese poem
Ii
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
E quem pois o amor da patria Com vehemencia egual sentiu, Qual o peito onde surgiu Mais ardente hoje esse amor? Quem, como elle, n'um só gesto, Quando a turba se atropela, Quebra as ondas da procella Resistindo ao seu furor?
E se a mão da prepotencia Procurava erguer-se altiva, Quem mais prompta e quem mais viva Tinha sempre a inspiração? Era ouvil-o ouvir a patria, Quando exclama na anciedade: «Liberdade, oh! liberdade!» Com a voz do coração.
Ah! no exilio, quantas vezes, Afogada entre gemidos, Mormurára a seus ouvidos A voz do paiz natal! E ouvindo-a sua alma, em impetos Do mais sincero heroismo, Sonhava em transpôr o abysmo E libertar Portugal!
Então a graciosa aldêa, O val coberto de olmeiros, Os ingenuos companheiros De seus jogos infantis, Tudo aos olhos lhe sorria, Matisado de mil côres, Montes, valles, prados, flores, Céo e luz do seu paiz!
Rompe um dia aurora esplendida, O tambor toca a rebate, No mais fero do combate Entra, luta, conquistou! Conquista dos proprios lares!... Mas do campo afasta a vista, Por que emfim n'essa conquista Sangue de irmãos se espalhou!
Era assim: tinha lutando No olhar o fogo supremo, Na voz o poder extremo Que arrebata a multidão; Desafiando o inimigo, Entre as nuvens da metralha, Era um tigre na batalha, Na victoria--era um irmão!