Portuguese poem
Num Album
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos.
No reverso da folha onde escrevo, Um cantor jovenil pulsa a lyra, E magoado, e sentido, suspira, Com saudosas memorias d'amor!
Na cadencia da lettra singela, Qual murmurio de branda corrente, Transparece sua alma innocente, Toda vida, perfume, e calor!
Variegado, risonho, brilhante, Inda agora na flor da innocencia Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia Atravez do seu prisma gentil:
Cuida extinctas ficções encantadas, Crê perdido o seu sonho d'amores, Julga vêr desbotadas as flores Que adornavam sua harpa infantil!... ................................
Ai! poeta! ai de ti! que saudade, Que saudade tão funda e sentida Has de ter d'esses annos da vida, Quando os vires ao longe ficar!
Que saudade tão funda do tempo Em que tinhas sentido saudade, Has de ter quando a triste orfandade Dos affectos tua alma enluctar!
Ouve pois joven bardo que a lyra Pulsas hoje com tanta amargura; De illusões, de poesia e ventura, Enche agora teus annos em flor.
Que são estes ephemeros sonhos, Os que vem derramar grata essencia Sobre a tarde da nossa existencia Dar-lhes vida, perfume, e calor!
Agosto de 1854.