Portuguese poem
Lembras-Te?
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
Lembras-te? frouxa expirava Aquella doce harmonia Que em nossas almas entrava. De uma luz tão resplendente Teu limpido olhar brilhava, Como a da aurora nascente, E aurora gentil sorria, No meigo azul de teus olhos Para raiar entre rosas Fragrantes e sem abrolhos.
Quando mais tenue partiu A cadencia saudosa, Tua boca proferiu Não sei que cortadas fallas, Que o ouvido não sentiu, Porque vieste graval-as Com a voz do ceo no peito, Que a ti rendido e sujeito Anhelando t'as ouviu.
Ao proferil-as, dormente O teu olhar descaíra, E em teu pallido semblante A expressão se reflectíra Dos affectos que agitavam A tua alma nesse instante. Ai! nesse instante do ceo, Que á terra breve fugíra, Que a elle inteiro volveu!
No horisonte estremeciam, Ebrias de amor as estrellas, E teus olhos se fitavam Na luz scintillante d'ellas; É que no ceo procuravam O eterno d'aquelle instante Que na terra presentiam Que passaria inconstante.
O alvor da nascente aurora, Que no horisonte assomava, Das estrellas desmaiava A viva luz, e inda agora, Tenho em minh'alma, querida, A expressão com que me olhaste Apontando para ella! É que essa aurora tão bella Não brilhava mais na vida!
Janeiro de 1849.