Portuguese poem
Primavera
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
Contempla este ceo esplendido, Ouve aquellas melodias De tanta ingenua avesinha, Que alegre, os serenos dias Da primavera adivinha.
Não vês a olaia? vaidosa! Só por vêr que a amendoeira, Mais cedo desabrochou, Vermelha como uma rosa, De repente se tornou.
Oh! bem vinda primavera! Ao vêr o sorriso terno Da tua boca divina, O prado, o monte, a campina, Que o triste e gelado inverno Sem piedade devastou, Num momento se animou!
Em teu regaço a abundancia, Esperançosa floresce; Á sombra de teus verdores, Entre a suave fragrancia De tuas variadas flores, Contente o pobre adormece.
E tu, minha vida, ao vêr-te Sósinha a meu lado agora, Nesta estação, nesta hora, Neste encantado logar, Á sombra d'essa verdura Onde frouxa a luz desmaia, Ante o mar que além suspira Na loira areia da praia, Não vês que a razão delira, Que dentro do coração Não cabe tanta ventura?!
Falta a vida, sim, a vida, Para esta alegria immensa, Das nossas almas, querida! Viva, ardente, pura, intensa, Nesses olhos brilha a chamma Do amor que tua alma incerra; Alma que ao sopro de Deus Em divino amor se inflamma, Alma que veiu dos ceos, E que não cabe na terra.
Fugaz, tranzitorio, vão, Será para nós o encanto Que nos enche neste instante De ventura o coração?
Será! que importa? constante Virá depois a saudade, Abraçar essas memorias De infinda felicidade; Como ao templo aonde as glorias, De paz, de amor, de alegria, Se celebraram um dia, Mas templo que ao chão tombou, Se abraça a hera viçosa, Reveste as pobres ruinas, Amparando carinhosa Esse resto que ficou!
Uma lagrima extremece, Vem de teus olhos á flor! Minha vida, esquece, esquece, Que póde haver na existencia Momentos de acerba dor! O sopro da Providencia, Vivo está, vivo respira, Neste ceo desassombrado, Na corrente que suspira, Neste cantico inspirado, Que as aves soltam no val, E d'elle provém a essencia Do nosso amor immortal!
Contempla o vasto horisonte Que o sol vivido illumina; Olha as flores da campina; Escuta as aguas da fonte; Respira esta aragem pura, Embalsamada, e suave; Ouve o cantico d'essa ave, Que improvisa na espessura!
Recolhe n'alma o perfume, D'esta encantada poesia. D'este sol, d'esta alegria, Que em torno de nós fulgura, E responde, minha vida, Se a nossa alma neste instante Póde com tanta ventura!
Abril de 1856.