Versos Portuguese Raimundo António de Bulhão Pato Xiii

Portuguese poem

Xiii

by (1828–1912)

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Velando a face pallida e sombria, Onde as veias inchando palpitavam, Como se o sangue em ondas refluisse Do coração á fronte, Azo ficára Callado longo tempo. Hugo, soltando Profunda, porém firme, a voz do peito, Roga ao pae que o escute alguns momentos. O principe em silencio lh'o concede:

«Tu bem sabes que a morte não receio; Tinto em sangue mil vezes nas batalhas Me viste ao lado teu, onde mais forte, Mais travado e mortal, era o combate. Então deves lembrar-te que esta espada, Que ha pouco os teus escravos me arrancaram, Derramára mais sangue do que em breve Fará correr a mão do teu carrasco. Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa? Quite me deixas d'esse dote infame! Presente, viva tenho na memoria A injuria com que as faces affrontaste De minha pobre mãe; e a vil herança Que recebi no berço, inda me accende O semblante de cholera e vergonha.

«No tumulo onde agora ella repousa, Irá juntar-se em breve o meu cadaver. Transido o peito seu por mil desgostos, Separada do corpo esta cabeça, Entre os mortos dirão até que ponto Foste amante fiel, pae carinhoso.

«Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes Que trocámos affronta por affronta. A mulher a que chamas tua esposa, Victima ingenua do teu fero orgulho, Não te lembras que fôra largo tempo Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a, Contemplando o seu rosto, desejaste-a, E para emfim provar que não podia Pertencer-me jámais ousaste affoito, Allegar o teu crime e a minha origem.

«Era indigno de ser esposo d'ella! E porque?! Por que as leis não consentiam Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste. E comtudo, se a mão da Providencia Me conservasse a vida, dentro em pouco Podéra conquistar de certo um nome Tão nobre como o teu. Tive uma espada, E sobeja ambição para elevar-me Com ella aos feitos de sonhada gloria. Bem sabes que as esporas mais brilhantes, Nem sempre as traz aquelle que nascêra Embalado na purpura, e que as minhas, O corcel que montava, por mil vezes Avante arremessaram dos mais nobres, Mais valentes senhores, quando, lembras-te? Carregando eu bradava: Éste e victoria! O meu crime conheço, e não procuro Minoral-o, descança, nem tão pouco Implorar-te alguns dias de existencia, Rapidas horas que sem ser contadas Passarão sobre a pedra do meu tumulo!

«Delirio, como foi o do passado, Não podia ser longo. A minha origem, O meu nome, não são de mancha isentos; Mas comtudo, apesar do teu orgulho, Regeitar perfilhar-me!... nesta face, Quaes olhos não verão que sou teu filho? A minh'alma tambem de ti procede! De ti, sim; por que tremes? de ti veiu O indomavel vigor do meu caracter. Não foi somente a vida que me deste, Porém quanto podia emfim tornar-me Em tudo igual a ti. Comtempla a obra Do teu culpado amor! Na semelhança, Semelhança fatal que vês no filho, Irada te castiga a Providencia! Est'alma não é pois a d'um bastardo, Como a tua não soffre a tyrannia. O passageiro sopro da existencia, Nunca em mais o presei do que tu proprio, Quando juntos na força do combate, A galope os corceis, a espada em punho, Por mil vezes nas renques do inimigo Rompendo a ferro frio penetramos.

«O passado acabou, e dentro em pouco O futuro com elle irá juntar-se, «Mas oxalá que a mão do Omnipotente He houvesse dado a morte em taes instantes!

«Era pouco deixar-me orfão no mundo Do affecto maternal; ousaste ainda Arrebatar-me a noiva! Mas que importa? Sou teu filho, conheço-o neste instante, E a sentença cruel que proferiste, Posto venha de ti, não posso agora, No fundo de minh'alma achal-a injusta.

«No peccado nasci, morro na infamia; Por onde começou, termine a vida. Errando o filho, o pae tambem errára; Num, castigas os dois. Perante os homens Eu, quem sabe? serei o mais culpado, Porém Deus julgará entre nós ambos.»