Portuguese poem
X
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
Pallida, sem alento e silenciosa, Aguarda Parisina nesse instante As palavras fataes. O seu destino Quão rapido mudou! Ha pouco ainda, D'aquelles olhos a celeste chamma Pelos salões doirados espargia A meiga seducção. Se nesses olhos Visse alguem borbulhar uma só lagrima, Mil cavalleiros da mais nobre estirpe, Arrancando da espada, a vingariam! Mas agora, infeliz! quantos a cercam, Mal disfarçam no rosto carregado A contida expressão do seu desprezo! E elle, o amante adorado da sua alma, Elle, oh Deus! que liberto por instantes, Por instantes que fosse, a houvera salvo, Jaz preso ao lado seu em duros ferros! Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras Onde outr'ora fugia a cor suave Da terna violeta, convidando A mil sequiosos, demorados beijos, Se entumecem, velando a vista immovel Das pupillas, nas quaes a dor intensa Accumula uma lagrima apoz outra!