Portuguese poem
A Alforria do Cachorro
by Sílvio Romero (1851–1914)
No tempo em que o rei francês Regia os seus naturais, Houve uma guerra civil Entre os brutos e animais. N este tempo era o cachorro Cativo por natureza; Vivia sem liberdade Na sua infeliz baixeza. Chamava-se o dito senhor Dom Fernando de Turquia; E foi o tal cão passando De vileza a fidalguia. E daí a poucos anos Cresceu tanto em pundonor, Que os cães o chamaram logo De Castela Imperador. Veio o herdeiro do tal Dom Fernando de Turquia, Veio a certos negócios Na cidade da Bahia. Chegou dentro da cidade, Foi a casa de um tal gato; E este o recebeu Com muito grande aparato. Fez entrega de uma carta, E ele a recebeu; Recolheu-se ao escritório, Abriu a carta e leu. E então dizia a carta:
"Ilustríssimo Senhor Maurício — Violento — Sodré — Ligeiro — Gonçalves — Cunha- Sutil — Maior — Ponte-Pé. Dou-lhe, amigo, agora a parte De que me acho aumentado, Que estou de governador Nesta cidade aclamado. Remeto-lhe esta patente De governador lavrada; Pela minha própria letra Foi a dita confirmada." Ora o gato, na verdade, Como bom procurador, Na gaveta do telhado Pegou na carta e guardou. O rato como malvado, Assim que escureceu, Foi à gaveta do gato, Abriu a carta e leu. Vendo que era a alforria Do cachorro, por judeu, Por ser de má consciência, Pegou na carta e roeu. Roeu-a de ponta à ponta, E pô-la em mil pedacinhos, E depois as suas tiras Repartiu-as pelos ninhos. O gato, por ocupado Lá na sua Relação, Não se lembrava da carta Pela grande ocupação. E depois se foi lembrando, Foi caça-la e não achou, E por ser maravilhoso Disto muito se importou.