Portuguese poem
A Mulatinha
by Sílvio Romero (1851–1914)
— Estava de noite Na porta da rua, Proveitando a fresca Da noite de lua, Quando vi passar Certa mulatinha, Camisa gomada, Cabelo entrançadinho. Peguei meu capote, Saí atrás dela, No virar do beco Encontrei com ela, Ela foi dizendo: "Senhor, o que quer? Eu já não posso Estar mais em pé, Olhei-lhe pras orelhas, Vi-lhe uns brincos finos, Na réstea da lua Estavam reluzindo.
Olhei pro pescoço. Vi um belo colar; Estava a mulatinha Boa de se amar. Olhei-lhe pros olhos, Vi bem foi ramela; De cada um torno Bem dava uma vela. Olhei-lhe pra cara, Não lhe vi nariz; No meio do rosto Tinha um chafariz. Olhei-lhe pra boca Não vi-lhe um só dente; Parecia o diabo Em figura de gente. Olhei-lhe pros peitos, Eram de marmota; Pareciam bem Peitos de uma porca. Olhei-lhe pras pernas, Eram de vaqueta; Comidas de lepra, E cheias de greta. Olhei-lhe pros pés, Benzi-me de medo; Tinha cem bichos Em cada um dedo.