Portuguese poem
Chegança dos Marujos
by Sílvio Romero (1851–1914)
ENTRADA
Entremos por esta nobre casa Alegres louvores cantando, Louvores à Virgem Pura, Graças a Deus Soberano.
O Contra-mestre:
Olhem como vem brilhando Esta nobre infantaria! Saltemos do mar pra terra, Ai, ai!... festejar este dia.
Piloto:
Seu Contra-mestre, Nosso leme está quebrado; E a proa desta nau Já está toda arrebentada.
Contra-mestre:
Senhor Piloto, Aqui venho me queixar Que o seu gajeiro grande Botou-me a agulha no mar.
Piloto:
Sem mais demora Meu gajeiro preso já, Para ele me dar conta Da agulha de marear
Gajeiro:
Senhor Piloto, Se promete me soltar, Já eu lhe darei conta Da agulha de marear.
Piloto:
Sem mais demora Meu gajeiro solto já, Que ele já me deu conta Da agulha de marear.
Gajeiro:
Graças aos Céus De todo meu coração, Qu'estou livre dos ferros, Bailando neste cordão.
Contra-mestre:
Senhor Piloto, Para onde está mandando? Já pelo seu respeito Estamos todos chorando. . .
Piloto:
Seu Contra-mestre, Não me venha indignar; Veja bem qu'estou olhando Pra agulha de marear.
Contra-mestre:
Senhor Piloto, Onde está o seu sentido, Que pelo seu respeito Estamos todos perdidos?
Piloto:
Esta resinga Não se há de acabar Sem no fio desta espada Nos havermos de embraçar.
(Segue-se a briga ao mesmo tempo em que toda a marujada está cosendo o pano e cantando.)
"Triste vida é do marujo; Qual delas é mais cansada? . . Que pela triste soldada Passa tormento Passa trabalhos. . .
Dom dom. . .
"Antes me quisera ver Na porta de um botequim. Do que agora ver o fim
Da minha vida, Da minha vida. . .
Dom dom..."
Contra-mestre:
Virar, virar, camaradas, Virar com grande alegria, Para ver se alcançamos A cidade da Bahia.
Dom dom...
Capitão:
Fazem vint'anos e um dia Que andamos n'ondas do mar, Botando solas de molho, 0h! tolina, Para de noite jantar. Sobe, sobe, meu gajeiro, Meu gajeirinho real; Olha para estrela do norte, Oh! tolina, Para poder-nos guiar.
Gajeiro:
- Alvistas, meu capitão, Alvistas, meu general, Avistei terras de Espanha, Oh! tolina, Areias de Portugal. . . Também avistei três moças Debaixo de um parreiral; Duas cosendo cetim, Oh! tolina, Outra calçando o dedal.
Capitão:
Desce, desce, meu gajeiro, Meu gajeirinho real; Olha pra estrela do norte, Oh! tolina, Para nos poder guiar.
(Tudo isto é cantado e representado ao vivo. Depois que o gajeiro desce, a multidão dos marujos vai saindo, e cantando à despedida.)
Todos:
Ora, adeus, ora, adeus, Que me vou a embarcar; Se a fortuna permitir Algum dia hei de voltar.
Ora, adeus, belas meninas, Que de Lisboa cheguei; Ai! pensavam que eu não vinha Para nunca mais as ver!. . . Todos filhos da fortuna Que quiserem se embarcar, A catraia está no porto, A maré está baixa-mar. Quando Deus formou o navio Com seu traquete de lona, Também formou o marujo Lá no pau da bujarrona. Quando Deus formou o navio Com seu letreiro na popa, Também formou o marujo Com seu charuto na boca. Quando me for desta terra Três cousas quero pedir: Uma é um mal de amores Pra quando tornar a vir.
(Aqui finda-se, e, pela rua, de uma casa para outra, vão cantando improvisos, como este, que pudemos colher.)
No jardim das ricas flores Vi uma rola cantando; A rolinha abriu o bico O perfume arrespirando. . .