Portuguese poem
Conversa Política entre um Corcunda e um Patriota
by Sílvio Romero (1851–1914)
C. — Deus lhe guarde, meu senhor.
P. — Venha com Deus, cavaleiro, Venha, logo me dizendo Se é corcunda ou brasileiro. Vejo-lhe divisado Na cabeça um grande galho, Bem me parece ser Da vazante o espantalho.
C. — Sim senhor, eu sou corcunda E morro pelo meu rei; Esta divisa que trago É da sua real lei. Se o senhor é patriota, Provisório cidadão, Se fala contra o meu rei, É judeu, não é cristão. E com isto já me vou, Não quero mais esperar; O senhor é jacobino Pelo modo de falar.
P. — Dê-me atenção, senhor, Não se faça esforecido; Um homem apaixonado Não dá prova de entendido. Eu conheço o seu caráter, Não é de tolo e vário, Mostrar ser de pensante, Ou de um escriturário. Faça-me a honra apelar, Venha-me dar um clarão; Só o senhor pode dizer-me O que é a Constituição, E também da Independência De Dom Pedro Imperador; Tudo me explique agora, Eu lhe peço por favor.
C.-Se o senhor fala-me sério, Se não é adulação, Eu lhe direi de que consta A nova Constituição.
P. — O senhor, creia em mim, Que muito sério lhe falo; Eu sou um homem néscio, Não sei onde canta o galo.
C. — Estes malvados pedreiros, Carbonários da nação, Que por serem carvalhistas Detestam serem cristãos, Não querem ter rei, nem roque, E menos religião, Por isso desprezaram O nosso rei Dom João. A lei deles é anarquia Da tal Constituição, Cativando desumanos Sem ter quem lhes vá a mão; Não querem saber de missa, Menos de sacramento, Mofam de tudo o que diz O Novo Testamento. Veja, pois, por que rigor Chamam a nós marinheiros, Arrocham de pau e peia; Morram todos ao chumbeiro. Uns homens nobres em tudo, No sangue e no proceder, De familiar ilustradas, Muitos deles vêm a ser Filhos de duques, marqueses, De condes e de morgados. Dos infames patriotas Têm sido desfeiteados... Estas feras doravante Só em si maldade encerra; Desprezam o nosso rei, Que Deus nos deu na terra: Um homem santo e pio, Um refúgio de esperança, O nosso Dom João Sexto, Filho da Real Bragança. Esta família ilustrada, Que o mesmo Deus destinou Pra seus filhos governarem, Serem de nós supriô... Mais agora estou contente De ver tudo acabado, Uns mortos e outros presos, Outros tantos enforcados. Adeus, tenha saúde, Creia nisso que lhe digo, Fuja dos patriotas, Que são nossos inimigos; Já estão-se acabando As malditas rebeliões, Ficando só no Brasil A fé pura de cristãos.
P. — Tratemos da Independência.
C. — Isso é um passo muito errante: Dom Pedro no Brasil Não pode ser imperante.
P. —Porque? Ele não é Bragança?
C. — Se o rei ainda é vivo Não pode haver uma herança.
P. — Já não posso, seu corcunda, Suas loucuras calar, Quer por gosto, quer por força, Ouça-me agora falar. Diga-me, homem sem brio, Amante do cativeiro, Somos terras, somos gados Que Dom Pedro seja herdeiro? Quando Deus formou o mundo Qual foi o rei que deixou? Não deixou um só Adão, De todos progenitor? Deste mesmo Adão não fez Deus no céu para seu mando Uma mulher para ele Produzir o gênero humano? Desses pobres camponeses Produziu todas nações, Algum dia eles tiveram Fidalguia ou brasões ? Onde foi Bragança haver Esse sangue ilustrado ? Só se foi por outro Adão, Que por Deus não foi deixado. Só dessa descendência De gentes que Deus não fez, Saiu toda a jerarquia, Condes, duques e marquês. Abre os olhos, homem tolo, Adora o Deus verdadeiro, Aquele que por nós morreu Como inocente cordeiro. Se um rei é tão real, Como adulas a Dom João! É baixeza no morrer Se formar em podridão; Ressuscitar aos três dias, Assim como ressuscitou O rei, filho de Maria.
C. — Eu cá sigo o rei Davi Que o mesmo Deus consagrou.
P. — Isto lá eu não duvido, E também por isto estou; Mas quem era o rei Davi ? Era um pobre coitado. Era um simples pastorzinho Do rebanho de seu gado. Que é do nosso rei Davi ? Agora só há tiranos Dissolutos, incivis, De vaidade profanos.
C. — Já é tarde, vou andando; Tenha mão, seu papagaio, Você diz cadê as tropas Do coitado do Pinheiro; É certo que lá andei, E que dele sou soldado...
P. — Perseguiste teus patrícios Como lobos defamados; Nas casas que cercaste Tambem foste carniceiro. Ajudaste a tirar Vida, honra e dinheiro; Ajudaste a matar Teus irmãos, mansos cordeiros, Que desgraça, seu corcunda, Entre os mesmos brasileiros!... Desprezar os seus irmãos Como lobos carniceiros. Esta injustiça, seu corcunda, Reclamam os céus inteiros...
C. — Meu amigo, estou certo Do quanto me tem narrado, Já me pesa de ter sido Dos meus irmãos o malvado. Roto o véu do engano, Nova vida eu terei, Constante patriota serei; Podem contar comigo: Defender a nossa pátria E morra o nosso inimigo!...