Versos Portuguese Sílvio Romero Chegança dos Mouros

Portuguese poem

Chegança dos Mouros

by (1851–1914)

Listen in the reader

Mar e Guerra:

Atraca, atraca, atraca, Atraca com chibança; Olhem que os inimigos Andam conosco em lembrança.

Patrão:

Alerta! que gente é esta? Nesta bulha não posso dormir!. . . Estava lá no meu quarto, Lá me foram consumir.

Todos:

Olhem que grande peleja Temos nós que pelejar, Se for o rei da Turquia, Se não quiser se entregar! Trabalharemos com gosto Pra nossa espada amolar; Se for o rei da Turquia, Se não quiser se entregar.

(Chegam os mouros e são intimados a renderem-se.)

Mar e Guerra:

Entreguem-se, mouros, À santa religião. Que dentro desta nau, Temos ferros no porão.

Rei Mouro:

Eu não me entrego, nem pretendo No meio de tanta gente; Somos filhos da Turquia, Temos fama de valentes.

Mar e Guerra:

Entreguem-se, mouros, Não se ponham a brigar, Que no fio desta espada Todos hão de se acabar.

Rei Mouro:

Eu não me entrego, nem pretendo No meio de tanta gente; Somos filhos da Turquia, Temos fama de valentes,

(Trava-se a luta mais forte; os mouros são derrotados, seu rei é preso; eles entregam-se.)

Mouros :

Olhem, olhem que desgraça Nos havia de chegar! Que nós sendo tão valentes, Sempre nos ter de entregar!

(Segue-se o batismo dos mouros,)

Capelão:.

Eu vos batizo, mouros, Na santa religião, Fazendo de vós, brutos, Fazendo de vós cristãos.

(Depois da vitória, os nossos vão à terra, onde o piloto se intriga com o patrão, e este o fere. É chamado o capelão para confessar o moribundo, que era seu próprio filho.)

Piloto:

Olhem que estocada Me deu o mestre patrão! Com esta sua bengala Traspassou meu coração!

Mandem chamar o capelão Que me venha confessar; Que a ferida é mortal, Desta não hei de escapar.

Capelão:

O que tendes, meu rico filho, Filho do meu coração? Dai-me um par de pistolas Qu'eu a vida irei vingar-te. . .

Todos:

Senhor padre capelão, Outro modo de viver; Não se fie nas oração, Que também há de morrer.

Capelão:

Eu não me fio nelas, Nem delas eu faço conta; Dai-me um par de pistolas Que a vida tê irei vingar.

( Retira-se o capelão)

Piloto:

Mandem chamar o surjão, Que venha me curar, Que a ferida é mortal, Desta não hei de escapar.

Cirurgião:

Desgraça minha Hoje aqui neste lugar; Se a vida eu não te der Nos ferros quero acabar Mas eu não faço cura Sem o meu chefe não ver; Qu'esta tua ferida Corpo-delito há de ter.

(O cirurgião enquanto não chegam o Mar e Guerra e outros para tomarem conhecimento do crime, manda buscar os medicamentos.)

Cirurgião:

Vem cá, Laurindo, Vai depressa na botica, Vai com todo o cuidado, Traz de, lá toda a medicina.

Laurindo :

Aqui tem, meu rico amo. E também belo senhor, Aqui tem a medicina, Saiu toda a seu favor.

Cirurgião:

Unguento novo Boto na tua ferida, Bálsamo cheiroso É com que darei-te a vida.

(O piloto vai melhorando e se restabelece.)

Piloto:

Graças aos céus De todo o meu coração, Que já estou livre da morte, Bailando neste cordão.

(Por este tempo vem o Mar e Guerra e os seus adjuntos e mandam prender o patrão.)

Patrão:

Pela pureza de Maria, Pelos santos do altar, Que hoje é dia de festejo, Não costumam castigar.

(O patrão, não sendo atendido, foi-se valendo de todos os circunstantes, um por um, para o soltarem. Ninguérn o atendendo ainda, ele valeu-se de toda a marujada que se prostrou aos pés de Mar e Guerra, que, afinal, o mandou soltar.)

Patrão:

Graças aos céus De todo meu coração, Que já estou livre dos ferros, Bailando neste cordão.

(Acabado o que, todos vão se retirando de casa, fingindo ser a marujada que vai à terra vender contrabando.)

Marujos:

Cheguem senhores mercantes, O seu preço venham dar Que a fazenda é mui fina. Para os senhores trajar.

Mercantes:

Dou-lhe vinte e um cruzados Pela fazenda real; Se não me quiser vender, Vou dar parte ao general; "Saberá vossa excelência, E também meu general, Que os seus dois guardas marinhas Fazem negócio pra mal."

(Tomam a rua, onde vão cantando improvisos e versos populares.)