Portuguese poem
Baile da Lavadeira
by Sílvio Romero (1851–1914)
Sai a 1ª lavadeira (cantando)
Antes que o sol saia, Hei de madrugar Nas margens do rio, Onde vou lavar.
Passarei contente, Muito divertida. Com as mais companheiras Da mesma lida.
Aqui ficarei Bem acomodada, Livre do calor, E da enxurrada.
Neste cantinho Ficarei contente, Dando lugar Se vier mais gente.
Sai a 2ª 1avadeira (cantando)
Eu vou caminhando, Que o sol está alto, Eu não sei se corro, Eu não sei se salto.
Porém já lá vejo Outra companheira. É Damiana Que veio primeira.
Fala a 2ª lavadeira para a 1ª
Deus vos salve, maninha, Aqui sejais bem chegada, De perigos e de sustos De tudo sejais guardada.
Fala a 1ª. Pastora
Deus vos salve, e também vós, De que chegais tão cansada? Por vires hoje mais tarde É que estais tão fatigada?
Fala a 2ª Pastora
Na verdade, Damiana, Que muito tarde acordei, E como vim na carreira, Muito cansada cheguei.
Fala a 1ª Pastora
De que pois então corrias? Viste acaso alguma fera, Ou algum lobo faminto, Ou viste tremer a terra?
Fala a 2ª Pastora
Tenho andado sozinha, Por bosques, penhas e vales: Entre animais ferozes, Mas sempre livre de males.
E assim, oh Damiana, Dou graças ao Criador, Pela mercê que me fez De me dar tanto valor.
(Cantam as duas Lavadeiras, seguindo para uma horta a estenderem roupa.)
Pastorinhas, grande dita Hoje todo o mundo alcança, Baixou já dos Céus à terra, Fruto da nossa esperança.
Canta Benta, passeando na horta.
Grande pensão, grande lida. Eu tenho na horta bela, De rega-la, de cuida-Ia, Que não dê o bicho nela.
(Volta)
Quem quer comprar Verduras mimosas, Enquanto estão Mui cubiçosas?
Benta para as lavadeiras:
Grande confiança é a vossa, De estenderem roupa nesta horta.
Ganta Benta Quem quer comprar, etc.
Sai a 4ª pastora, cantando:
Ando procurando Se alguém me viu O meu carneirinho, Que me fugiu.
Por mais que eu procure Por todo caminho, Não posso encontrar O meu carneirinho.
Do meu curralinho Stulto fugiu, Não sei como o lobo O não enguliu.
(Entra na horta de Benta, apanha o carneiro e canta)
Lá está na horta De Benta hortaleira; Como está cansado Da grande carreira!
Benta para a 4ª Pastora
Pastorinha, como entraste Aqui, sem minha licença ? Olha que esta ousadia Já me causa grande ofensa.
4ª Pastora
Ouve-me falar primeiro.
Benta
Desculpas não tens que dar, Ide-vos deste lugar.
4ª Pastora
Senta, cá comigo, Fale com modo atento, Pois eu não hei de sofrer De qualquer, atrevimento.
Benta
Atrevimento. Filena! Ignoro este tratar; Não queiras pois deste modo A minha fúria irritar.
4ª Pastora
Ora dai-me o carneirinho, Não é vosso, pois é meu.
Benta
Também tenho parte nele Pelas ervas que comeu.
4ª Pastora
Como isto pode ser, Agora me rio eu. . .
Benta
Ora isto não se atura, Eu estalo de paixão.
4ª Pastora
Assim é, bela menina, Pelo que diz tem razão; Ora dai-me o carneirinho, E basta de mangação.
Benta
Levai, pois, O carneirinho, Já dele me não importa; Só quero saber por onde Vós entrastes nesta horta.
4.a Pastora
Na carreira em que ele vinha Saltando montes e vales, Perdi de todo a razão Precipitei-me nos males
Saltei logo a vossa cerca, Sem mais pequena detença, Por não perde-lo de vista Não vos fui pedir licença.
Canta Benta
Levai O carneiro, Já creio ser vosso: Ficar-me com de Conheço não posso.
Canta a 4ª Pastora, retirando-se
Ficai-vos embora, Pastorinha bela, As ninfas vos teçam Mimosa capela.
Sai o Pescador com o carneiro, fala.
Venha cá, meu carneiro. Venha para cá, meu amigo, Que me há de servir de forro Cá dentro do meu umbigo.
Não há de chegar à porta, Nem tão pouco .à janela; Só há de andar no fogão Metido em uma panela.
O peixe é para a noite, Você só para o jantar; Como é hóspede não quero Que tenha o pior lugar.
Há de ter vinho na mesa, Não cuide que há de ser só, Porque pode, por descuido, Me dar na garganta um nó.
Chupei o belo quitute Que lá na fontinha achei; Indo para cima um pouco, Com este carneiro encontrei.
Se acaso houver dono dele, Há de entrar comigo em contas; Entrega-lo não hei de Por meio de várias pontas.
Sai a 4ª Pastora e fala
Venha cá, camaradinha, Onde este carneiro achou?
Pescador
Por ventura ele é seu? Meu trabalho me custou.
4ª Pastora
Dona sou bem verdadeira, A razão eu lhe direi; Pois do curral me fugiu, Cousa que ele nunca fez; Mas só lhe digo, que esta Já é a segunda vez.
Pescador
Você, se quer o carneiro, Há de me dar os sinais, Antes que o leve primeiro.
4ª Pastora
Ele é todo branquinho Só com uma malha em roda; Tem uma estrela na testa Que mal se vê, por sutileza, Que parece ser pintada, E não ser da natureza.
Pescador
Você cuida que eu estou doudo? Estou com todo o meu sentido, Dê-me o sinal que quiser, Com tudo isto, eu duvido.
4ª Pastora
Você, como o carneiro Não quer soltar das unhas, Eu irei chamar a Benta Que é boa testemunha.
Pescador
Na verdade razão acho, Para que dar testemunhas ? Não grite, falemos baixo.
(Dá o carneiro)
Quanto mais corre a notícia, Que na Lapa de Belém Nasceu, por nossa ventura, Jesus, todo nosso bem.
Vou agora até o rio O meu cofinho buscar; Antes que algum curioso Vá os meus peixes furtar.
(Vai-se)
1ª Lavadeira 1para a 2ª
Vamos também para a fonte Nossa roupinha enxugar, Para também do trabalho Um pouquinho descansar.
O Pescador para as Lavadeiras
Eu também vou até o rio O meu cofinho buscar, Pra da minha pescaria Algum peixinho ofertar.
(Vai-se)
Saem as Lavadeiras, cantando.
O cofo do peixe Que nós achemos Na beira do rio Também levemos.
Já que a fortuna Nos entregou, O dono esquecido O não levou.
Sai o Pescador, cantando.
Grande peça me fizeram, Grande logro me pregaram; Toda a minha pescaria, Todo o meu peixe levaram.
As duas Lavadeiras
Vamos às nossas cabanas Nossos .peixinhos tratar, Que quem chupou o quitute Sem peixe venha a ficar.
Ainda que venha o dono Há de levar por um óculo'.
Chega-se o Pescador às Lavadeiras e diz:
Eu me vou chegando a elas Antes que venha mais gente; Hei de tomar o meu cofo À fôrça de unhas e dentes.
Senhoras, dê-me o meu cofo Que a mim é que pertence; Sou obrigado a levá-lo, Disto me não dispense.
Senhoras, dê-me o meu cofo Não quero graças agora, Pois eu estou de jornada E me quero ir embora.
(Começa ele a puxá-las.)
As Lavadeiras
Você é que quer o cofo? Há de levar uma bota; Não puxe assim pela outra, Vá puxar sua avó-torta.
(Sai a 4ª Pastora, toma o cofo das mãos das Lavadeiras, entrega ao Pescador e diz:)
Pois que é isto, meu pastor, Que contenda é esta agora; Sabe isto como se faz? Tome já, vamos embora.
As duas Lavadeiras para a 4ª Pastora
T'odavia, pastorinha, Olhe como é chibante, Entregue o que nos tomou Aqui já no mesmo instante.
O Pescador para as duas Lavadeiras
O que foi que eu lhe furtei? Um caboré de guisado! Eu furtei porque estava Já de fome arrenegado.
Fala a 4a Pastora para o Pescador
Foi muito bem acertada Esta peça que vos fez; E' para vós não cairdes Noutro logro outra vez.
Pescador
E de mais, belas meninas, Não sabem que sucedeu? Que hoje por nossa ventura Jesus em Belém nasceu?
Todas
Prontas 'stamos, mui contentes, Pois é nosso desejo Que por tão alto convite As vossas plantas eu beijo.
Canta o Pescado
Grande prazer Temos na verdade: Nasceu Deus menino Por suma bondade
(Repetem todos o mesmo.)
Cantam as duas Lavadeiras
Aceitai, Jesus Menino, Nosso coração sincero; Aceitai, pois dentro dele Firmemente vos venero.
Grande prazer, etc.
Cantam a 3a e 4'" Pastora
A hortaliça que trago E também o carneirinho Aceitai, não desprezeis, Perdoai a oferta minha.
Grande prazer, etc.
Canta o Pescador
Este lindo robalinho Que vós me destes na linha, Aceitai, não desprezeis A humilde oferta minha.
Grande prazer, etc.