Versos Portuguese Sílvio Romero ABC do Lavrador

Portuguese poem

ABC do Lavrador

by (1851–1914)

Listen in the reader

A gora quero tratar, Segundo tenho patente, A vida de lavrador No passado e no presente.

Bem queria ter ciência, Dizer por linhas direitas, Para agora explicar Uma idéia bem perfeita.

Cuidados tenho da noite, De madrugada levanto, De manhã vou para a roça A correr todos os cantos.

Domingos e dias santos Todos vão espairecer, Eu me acho tão moído, Que não me posso mexer.

Estando desta sorte Não é possível calçar, Os pés inchados de espinhos, E de todo o dia andar.

Feliz de quem não tem Esta vida gloriosa, Não vive tão fatigado, Como eu me acho agora.

Grande tristeza padece Todo aquele lavrador, Quando perde o legume todo Porque o inverno escasseou.

He possível aturar Até a idade de cinquenta, Quando se chega aos quarenta, Já parece ter oitenta.

Lavradores briosos Consideram no futuro, Não tomam dinheiro sem ver Os seus legumes seguros.

Muitos não têm recursos, Não sabem o que hão de fazer, Não temem a percentage, Querem achar quem dê.

Não queira ser lavrador Quem tiver outra profissão, É a vida mais amarga Deus deixou aos filhos de Adão.

Poi quando se colhe Os legumes de um ano, Ainda se não acaba, Nova roça começando.

Quase sempre os lavradores De cana, café, cacau, Têm feitores de campo Para não passar tão mal.

Razão eles têm Para ter contentamento, Quem trabalha no campo É quem padece o tormento.

Souberam as câmaras criar Ministros pra proteger, Nesta terra não tem um banco Que a ela possa favorecer

Terra pobre como esta Ninguém pode dar impulso, Sem banco, sem proteção, Fora de todo o recurso!

Vive sempre isolado Metido nas espessuras Com a memória no passado, O futuro sem venturas.

Xoram todos a sua sorte, Faz pena ver os lamentos, De pedir dinheiro a rebate, Por não acharem por centos.

Zombem, façam caçoada Da vida do lavrador, Considerem no futuro, A sorte a Parca cortou.

O til por ser do fim, Sempre dá uma esperança, Na consolação dos afetos Até chegar a bonança.