Portuguese poem
ABC de Amores
by Sílvio Romero (1851–1914)
Aqui te mando, benzinho, Um A B C de amores, Para que nele tu vejas Os meus suspiros e dores.
Anda cá, meu doce bem, Anda ver, prenda querida, As queixas que tu me formas Nos passos da minha vida.
Bem conheço, prenda minha, Que a vida me deixaste, Por sentires grande falta Dum coração que me roubaste...
Cadeias foram teus olhos, Grilhões os teus carinhos, Que prenderam meus afetos Entre os mais duros espinhos.
De cada vez que te vejo, Se me dobram as prisões: Eu juro me teres roubado Duzentos mil corações.
Empenhei-me a experimentar A dureza do teu peito: Nasci forro, sou cativo, Sou leal e até sujeito.
Feriste meu coração Para nele seres ouvido; Ficaste sendo senhora, Eu fiquei sendo cativo.
Glória dos tempos passados, Que tão depressa fugistes! Que te faziam meus olhos, Que vos fazem andar tristes?
He bem que chorem meus olhos De uma dor que os atormenta; Um sensível coração, Pelos olhos arrebenta.
Ide, meus olhos, nadando Nestas águas que chorais; Amor de meu coração, Quando nos veremos mais?
Lágrimas, caí, caí, Relatai a minha dor; Pois um triste coração Não tem outro portador.
Mais me valia morrer Quando em ti pus o sentido; Não pensei que tantas máguas Me tivessem combatido.
Não abatas tanto, ingrata, Um triste, aflito, queixoso; Pois seja da minha vida Fim, tormento rigoroso.
O rouxinol quando canta Forma queixas de sentido; Eu também me queixarei Por ser mal correspondido.
Peço-te, benzinho amado, Que me faças ,um carinho, Que vivas na esperança Qu'inda hei de ser teu benzinho.
Quem vir a enchente no mar, Não lhe cause confusão; Que são águas dos meus olhos Fontes do meu coração.
Rebenta, minh'alma aflita, Que está ferido o meu peito, Pelo muito que eu padeço, Menina, por teu respeito.
Suspenderei os meus prantos, Cessarei já de chorar, Já que me coube por sorte Querer bem e não lucrar.
Tenho tão pouca ventura Na sorte de te querer, Que te peço por esmola Que me deixes padecer.
Vivo tão pensionado. Que não sei de meus cuidados, Se padeço ou se suspiro, Se choro de magoado.
Xorando só de contínuo Por viver tão retirado, Na tua ausência, vidinha, Neste triste, aflito fado.
Zombem embora do meu pranto. Pois a mim fizeste guerra, Outro não acharás Em todos os bens da terra.
O til por ser pequenino Também goza estimação; Estou esperando. a resposta Que venha da tua mão.