Versos Portuguese Sílvio Romero ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

Portuguese poem

ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca

by (1851–1914)

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A gora triste começo A manifestar o meu fado Os meus grandes aveixames A vida de um desgraçado.

Bem queria nunca ser Vaqueiro neste sertão Para fim de não me ver Em tamanha confusão.

Com cuidado levo o dia E a noite a maginar De manhã tirar o leite Ir ao campo campear.

Domingos e dias santos Sempre tenho que fazer. Ou bezerros com bicheira, Os cavalos pra ir ver.

Enquanto Deus não dá chuva Logo tudo desanima, Somente mode o trabalho Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro Viver aqui sobre si, Que entrando nesta vida Diga: — Já me arrependi!

Grande é a tirania De um dono de fazenda, Que de pobre de um vaqueiro Não tem compaixão nem pena.

Homem que tiver vergonha Vaqueiro não queira ser, Que as fazendas de agora Nem dão bem para comer,

I no tempo que nós estamos Ninguém tem opinião; Para um dono de fazenda Todo vaqueiro é ladrão.

Labora um pobre vaqueiro Em tormentos tão compridos, Quando é no remate de contas Sempre é mal correspondido.

Mandam como a seu negro, Uns tantos já se matando; Ainda bem não tem chegado Já seus donos estão ralhando.

Não posso com esta lida, Me causa grande desgosto, Só por ver como vai O suor deste meu rosto.

O bom Deus de piedade A mim me queira livrar, Enquanto vida tiver E bens alheios tratar.

Para o mês de Sam .João Vou ver o que estou ganhando. Quero pagar o que devo, Inda lhe fico restando.

Querendo ter alguma cousa, Não há de vestir camisa, Visto isto que eu digo O mesmo tempo me avisa.

Ralham contra os vaqueiros, Nada se faz a seu gosto; Se acaso morre um bezerro Na serra se toma outro.

Saibam todos os vaqueiros Tratados bem de seus amos, Se eles não têm consciência, Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê Inda não disse a metade, Por causa do leite de vaca Se quebra muita amizade.

Vou dar fim ao A, B, C, Eu não quero mais falar, Se fosse eu a dizer tudo São capazes de me matar.

Xorem e chorarão Com grande pena e pesar, Somente mode um mumbica Que dão para se matar.

Zelo, zeloso, Todos sabem zelar, Que de um pobre vaqueiro Sempre tem que falar.