Versos Portuguese Sílvio Romero ABC do Boi-Prata

Portuguese poem

ABC do Boi-Prata

by (1851–1914)

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A dois de agosto de quarenta e quatro Nasci no Saco da Ema; Bebi na lagoa grande, E malhei lá na Jurema.

Bebia bem assustado Com o medo de meu dono, Passava noites a andar Sem saber o que era sono.

Como desenganou-se o meu dono De acompanhar a carreira, Foi chamar o João de Souza Da fazenda da Ladeira.

Deu este sua carreira Em cima do melado, Mais adiante um pouco, Gritou: — Estou enganado.

Ele disse bem vexado E todo se tremendo: — Aqui sumiu-se o garrote, O rasto não estou mais vendo.

Foi voltando para trás Bastante desconcertado, Por ter perdido a carreira No seu cavalo melado;

Grande pena a de meu dono Do Souza vendo a chegada; Perguntou com muita pressa: Cadê os seus camaradas?

Hindo este um pouco calado Sem poder contar a história, Disse com fé o meu dono: — Espero ainda a vitória.

I fizeram nova entrada, Zé de Souza no pedrezão; João de Souza foi gritando: — Lá está o barbatão.

João de Souza por esperto Cavalgava no melado; José disse com soberba: — Ele agora vai pegado.

Lá no poço do Pereira João botou-me no mato; Logo chegou Zé de Souza, Foram-me ganhar o rasto.

Me seguiram legua e meia, Voltaram desconsolados, Por haver anoitecido E não terem me alcançado.

Não peguei o barbatão, Disse logo João de Souza. Quando chegaram em casa: — Corre o bicho até que zoa.

Oh! meu irmão Francisco, Eu estou desenganado; Não pego o barbatão Nesse cavalo melado.

— Porque o José de Souza Em cima do pedrezão Está também desenganado Que não pega o barbatão.

— Queira tomar um conselho: Venda ao Manoel Teixeira; Ele se atreve a pegar, Por ser grande na carreira.

Receba de Manuel Teixeira O dinheiro todo completo; Não o podemos pegar. Só ele, por ser esperto.

Sim, senhor, eu vou vender. Por doze mil réis contados, Porque quero ficar livre Daquele bicho malvado.

— Todo descansado fiquei, Nunca mais vi a poeira De João de Souza Leal, Zé de Souza da Ladeira.

— Uma queda não me, deram, Nem me puseram a mão; Muitas vezes eu vi eles Rolar na poeira do chão.

Voltavam sempre pra trás, Contando muitas histórias; Porém sempre fui eu Que tive toda a vitória.

Xegada deles em casa Muitos queriam ver; Vinham chegando de tarde Antes de anoitecer.

Zelo comigo, garrote, Sou teu dono — Teixeira, Porque não sou de raça De não te pegar na carreira.