Portuguese poem
Dona Infanta
by Sílvio Romero (1851–1914)
Estava Dona Infanta No jardim a passear; Com o pente douro na mão Seu cabelo penteava; Lançava os olhos no mar, Nele vinha uma armada. Capitão que nela vinha Muito bem a governava.
"O amor que Deus me deu, Não virá na vossa armada? —Não o vi, nem o conheço, Nem a sina que levava. "Ia num cavalo douro Com sua espada dourada, Na ponta de sua lança Um Cristo douro levava.
—Por sinais que vós me destes Lá ficou morto na guerra, Debaixo duma oliveira Sete facadas lhe dera. "Quando fordes e vierdes Chamai-me triste viúva, Qu'eu aqui me considero A mais infeliz sem ventura.
—Quanto me dareis, senhora, Si vos eu trouxe-lo aqui? "O meu ouro e minha prata, Que não tem conta nem fim. —Eu não quero a tua prata, Que me não pertence a mim; Sou soldado, sirvo ao rei, E não posso estar aqui. Quanto me dareis, senhora, Si vo-lo trouxer aqui? "As telhas de meu telhado Que são de ouro e marfim.
—Eu não quero as tuas telhas, Que me não pertence a mim; Sou soldado, sirvo ao rei, E não posso estar aqui. Quanto me dareis, senhora, Si vo-lo trouxer aqui? "Três filhas que Deus me deu Todas te darei a ti, Uma para te calçar, Outra para te vestir, A mais linda delas todas Para contigo casar.
Eu não quero tuas filhas, Que me não pertence a mim; Sou soldado, sirvo o rei, E não posso estar aqui. Quanto me dareis, senhora, Si vos eu trouxe-lo aqui ? "Nada tenho que vos dar E vós nada que pedir.
—:Muito tendes que me dar, Eu muito que vos pedir: Teu corpinho delicado Para comigo dormir.
"Cavaleiro que tal pede Merece fazer-se assim: No rabo de meu cavalo Puxa-lo no meu jardim!
Vinde, todos meus criados, Vinde fazer isto assim. —Eu não temo os teus criados, Teus criados são de mim.
"Si tu eras meu marido, Porque zombavas de mim? —Para ver a lealdade Que você me tinha a mim.